quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sementes de Esperança para além da morte

Nasceu-nos um anjo

O pequeno David chegou à missão com os avós. Segundo eles, o pequeno estava «um pouco quente».
Eu penava com os efeitos da malária, que me impediam de fazer grandes coisas. Foi a Rosanna quem verificou a febre do menino. Não era nada de significativo, mas ficámos de vigilância durante a noite. No dia seguinte, eu já não conseguia levantar-me da cama. A Rosanna continuou atenta ao David.
Às três da tarde, ela vem ao meu quarto e diz-me: «O David está super quente! Já lhe dei paracetamol, mas a febre não desce!» Eu, também com febre, pus a mão no menino e vi que a temperatura era exagerada. Aconselhei-a a dar-lhe um banho de água fria e a ir com ele ao hospital. Ela lá foi, um pouco contrariada, porque era domingo e, aos domingos, o despacho do hospital é ainda pior do que de semana.
Voltaram pouco depois. Mas o quinino e o paracetamol não venciam a febre, e o pequeno David voltou ao hospital, para ser posto a soro ou para fazer algo que baixasse a temperatura.
Passados dez minutos, do meu quarto consegui reconhecer a voz da avó do David e o choro da
Rosanna. Um pensamento abateu-se sobre mim: «Salvar um bebé para, após ano e meio aqui, o ver morrer…» O certo é que a convivência com a morte e com a vida são uma constante aqui na missão.
Hoje, quando recordo o sorriso do David, com apenas oito dentinhos, ou lembro os seus primeiros passos, as suas primeiras «palavras», não posso deixar de pensar que para nós nasceu um novo anjo no céu. Um anjo que nos enche de esperança e de força para continuar a lutar, a fim de que muitos possam viver.
Talvez a morte do David não seja justa, mas mais injusto seria desistir de lutar em favor da vida. Que a esperança seja sempre maior que a tristeza e o desânimo!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Quando a dignidade é prioritária

A História dos cestos (in)úteis

Sempre sério e muito discreto, Jorge era um homem que, apesar de ainda não ser de idade muito avançada, sofria de várias doenças.
A retenção de líquidos era uma constante e a consequente discriminação também. De facto, todos consideravam que o seu mal «não era coisa de hospital» (era bruxedo!), por isso, Jorge era colocado à margem com a sua esposa igualmente discriminada por nunca ter tido filhos.
Este casal vivia, assim, com grandes dificuldades e fora do enquadramento social.
Um dia a mulher do Jorge adoeceu gravemente. Apesar das suas muitas dificuldades, Jorge consegui trazê-la (com um carrinho de mão) até à missão e, de seguida, até ao hospital. Esta mulher, completamente desidratada (e após vários dias de febre passados, em casa, sem medicação), acabou por sucumbir ao fim de três dias. O Jorge ficou sozinho e sem meios sequer para dar à sua esposa um funeral digno. Socorreram-lhe alguns cristãos que, dadas as circunstâncias, se prontificaram a ajudar.
Daí para a frente o Jorge, desesperando pela sua subsistência, começou a "fabricar" cestos. No entanto, não conseguia fazê-los senão rendilhados e abertos não sendo muito práticos para arrumações ou para outro tipo de utilização caseira. Contudo, a sua dignidade impedia-o de cair na mendicidade.
O Jorge sabia que ninguém queria comprar aqueles cestos... só a missão poderia compreender o seu desespero... Assim, veio uma vez vender, e nós compramos... outra vez, e nós compramos... e assim por diante.
Certo dia, o Jorge precisava de mais dinheiro que habitualmente, então, confeccionou um cesto enorme! Veio... a Augusta disse-me:
- Mais vale dar-lhe o dinheiro que ele precisa e ele leva o cesto.
Contudo, se o fizéssemos Jorge iria perceber que estava a receber uma esmola e, para o seu orgulho e dignidade, isso seria feri-lo demasiado.
Olhei para o cesto... entrei para dentro dele e disse a rir à Augusta:
- O cesto é útil! Ficamos com ele!
A rir, pagamos-lhe o cesto e o Jorge lá foi todo contente.
Este foi o seu último cesto... Um dia, passou lá por casa de noite, vinha despedir-se. No hospital tinham-lhe dito que era melhor ir para casa descansar. O Jorge sentia-se a morrer... Convidamo-lo a jantar, mas não quis. Demos-lhe algum dinheiro e ele, prometendo que nos iria trazer outro cesto se algum dia conseguisse melhorar, lá foi para casa...
O Jorge partiu, na casa, ficaram os cestos perpetuando a memória de alguém que nunca deixou de lutar pela sua dignidade.

Estes cestos, hoje acumulados em casa, falam das razões pelas quais se mantém firme a nossa esperança: a luta pela justiça social, pelo direito à Vida e sobretudo, a luta pela dignidade humana.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Um casamento e muitas gargalhadas


Passar para a outra margem...

     Era Domingo, o sol tinha-se levantado há pouco mais de uma hora e já eu andava pela casa a preparar um café que podesse aconchegar-me o estômago nas próximas longas horas.
    Na verdade, este era um Domingo muito especial! Fui com o Pe. Luigi celebrar um casamento a Zinga, uma aldeia próxima (só duas em canoa), foi o primeiro casamento católico que assisti aqui em África e, foi também a primeira vez que “conheci o rio por dentro”. Sim, sim! Tudo parecia correr pelo melhor. Há hora marcada, chegou a nossa canoa com o nosso "marinheiro" de serviço. Após as saudações habituais, lá subimos para a canoa e..., pouco depois de ter saído da margem do rio para começar a viagem, a canoa virou e todos fomos à água!
 
  Lembrei-me bem de todas as recomendações da minha mãe:
    - "Não andar de conoa! Lembra-te que não sabes nadar!"
   Pouco importa como cheguei até à margem. Na verdade, estavamos suficientemente próximos da margem para que o primeiro pensamento que me ocorresse fosse: "pena de não ter ninguém por perto para tirar uma foto!" Dentro do saco, a minha máquina fotográfica parece ter gostado do banho… felizmente ainda funciona.
   Bom, como já passava das 6 horas da manhã, só havia uma coisa a fazer, assim molhadinhos, entrar de novo na canoa e prosseguir viagem.
   Durante o caminho, por entre gargalhadas, fomos tentando, o Pe. Luigi e eu, secar a alva para que ele pudesse celebrar o casamento mais ou menos enxuto.
     Chegando lá, o casamento foi celebrado com grande alegria e umas 7 horas depois estavamos a comer com os noivos e os seus convidados (ou seja, toda a aldeia!).
     O regresso foi vivido sem grandes sobressaltos, de um lado do rio, a beleza da floresta Centro-africana, do outro lado, a imponência da floresta Congolesa.
      Chegados a casa... na aldeia não se falava de outra coisa: os brancos cairam ao rio! E lá em casa... "inveja" por não terem vivido esta aventura connosco.
    Assim se passou mais um dia de aventura onde Deus se fez, como sempre, presente. Aqui, todos os dias são de trabalho, mas são também dias de alegrias e momentos únicos que, verdadeiramente, só nesta terra maravilhosa podem acontecer.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Aventuras na Floresta


Uma noite no coração da floresta

     Eram meados de agosto de 2007, tinha eu acabado de chegar de Bangui com a Cármen (fomos ao casamento da Rosa e buscar uma LMC espanhola que veio cá passar um mês) e que pensamos? Bom, como a Cármen deve regressar a Espanha e aproveitando a presença da Cristina, fomos até à floresta (ao acampamento do pequeno David) para que a Cármen se despedisse do David e da família e para aproveitar para apanhar “makongo” (uma espécie de lagarta que por esta altura sai das árvores e que é muito rica em proteínas).
      
Assim, lá fomos nós rumo à floresta! Quando finalmente chegamos, logo nos instalamos e foi preparada a nossa “cama” pois a noite estava quase a chegar.
     Tiramos algumas fotos, brincamos com o makongo que eles haviam recolhido nesse dia e depois toca a preparar tudo para comer.
     Depois de comermos, não tendo outra coisa para fazer, ficamos deslumbradas com a descoberta de uma pedra do rio que funciona como acendalha e, claro, queimamos umas tantas só pelo prazer de ver uma pedra a arder. No meio disto, um “pequeno” bicharoco, parecido com uma barata gigante (mais ou menos 10cm por 5cm), quis experimentar o meu colo. Todos os que estavam ao meu redor ajudaram-me a gritar e lá nos livramos do nosso amiguinho!
     Depois de procurarmos uma boa “casa de banho”, lá fomos para a nossa “casa”.
    Com apenas duas “paredes” e o telhado (tudo feito com folhas de bananeira e canas de bambú), a nossa casa oferecia-nos uma reconfortante cama feita de ramos de árvores. Assim, apenas com duas esteiras que tínhamos levado, lá nos deitamos, tentando repousar-nos dos quilómetros que havíamos feito para aí chegar. Claro que sempre que alguma de nós se virava na cama todas as outras acordavam porque todos os paus que tínhamos por baixo do corpo se moviam.
     Estava eu em pleno sono e acordo com a Cristina que dizia: “Faltará muito para nascer o dia? Já não posso mais com esta cama!” claro que também a Cármen acordou e pusemo-nos a supor que hora seria. Mas a Cristina estava mesmo cansada das comodidades da nossa caminha, por isso, acendeu a lanterna para ver que eram 4h30. Bom, lá voltamos a dormir até às 6 da manhã. E… surpresa: a chuva caía que dava gosto ver! Ou seja, não havia possibilidade de ir procurar makongo, por isso, tínhamos que pensar em regressar (mesmo se chovia) porque tínhamos a festa da Assunção para preparar. Assim sendo, aproveitamos que alguém vinha para Mongoumba e lá nos metemos ao caminho.
     
O caminho parecia um pântano e eu lá me ia abrigando com uma esteira e tentando não escorregar. Sobre as nossas cabeças, os relâmpagos pareciam o flash de uma máquina fotográfica, como se o Céu se divertisse a ver-nos todas ensopadas. Então disse à Cristina: “Pena que não há ninguém para fazer uma foto!” e ela, como todo o visitante que não resiste a uma boa foto para mais tarde recordar, lá tirou a máquina e fez algumas fotos.
     Pois assim chegamos a Mongoumba e, claro, como estávamos super cansadas e molhadas até aos ossos… lá nos secamos à pressa porque o nosso enfermeiro, por causa da chuva, não tinha vindo e nós tínhamos o dispensário com gente e alguém a precisar de nós no hospital. Dividimo-nos como podemos e… eis que chegam 10 cooperantes de uma ONG!
     Não havia nada para comer e a casa estava um caos; felizmente, os nossos visitantes tinham trazido bastantes coisas para comer e assim, entre a cozinha, o dispensário e o hospital, lá conseguimos “bem” receber os nossos visitantes! Comemos e visto que, depois de comer que todos saíram para um passeio de canoa (a chuva parou de cair), aproveitei para escrecer as aventuras destas minhas últimas 24 horas!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A outra via - Ser LMC


Ser LMC? Porque não?

A Lídia é uma nossa amiga pigmeia que vem de tempos a tempos à missão.
Um Domingo, chegando a nossa casa disse que vinha à missa mas que depois queria falar comigo.
Pensei com os meus botões que ela tinha vindo para pedir alguma coisa. Com efeito, a seguir à missa, pediu-me que a acompanha-se à floresta pois queria mostrar-me duas situações complicadas. Uma mulher – Teresa – que, estando cega e sem filhos, não tinha quem cuida-se dela. E um homem – Ambrósio – um velho leproso também sem filhos.
Chamei a Márcia e lá fomos as duas com a Lídia e com o Gabriel – um amigo do mesmo acampamento dela – que entretanto se juntou a nós.
No caminho, encontramos a velha Teresa que partilhou connosco a sua solidão e a sua tristeza. Continuamos o caminho e nos pequenos acampamentos que íamos encontrando, parávamos a saudar as pessoas e a dar boas gargalhadas com os amigos.
Chegando ao acampamento da Lídia, encontramos o senhor Ambrósio. Os restantes habitantes do acampamento tinham-lhe refeito a casa mas ele temia que eles não tivessem a força necessária para continuarem a sustentá-lo.
Encorajamos o pobre mesmo sem grandes soluções a apresentar.
Continuamos pelo acampamento e porque, neste acampamento, é como se estivéssemos em casa, andamos de casa em casa a falar com todos os que íamos encontrando. Claro está que passamos mais tempo na casa da Lídia e na casa do Gabriel onde, no meio de conversas bem animadas íamos programando umas férias aqui no acampamento.
De regresso, aproveitando a beleza única da floresta, fomos parando nos diferentes acampamentos pigmeus e provando novos frutos que nunca tínhamos provado (pois, são frutos selvagens e, por isso mesmo, segundo a tradição, são muito reles para serem oferecidos aos brancos).

Quando chegamos ao caminho principal (a uns 3km de casa), a Lídia e o Gabriel regressaram ao acampamento e a Márcia e eu continuamos o caminho de regresso a casa.
Pelo caminho, as crianças vinham gritando com alegria nos cumprimentar e, claro está, os mais pequeninos iam chorando a fugir dos “fantasmas brancos” que se aproximavam.
O sol começava a esconder-se mas a alegria e a vida que encontrávamos ao longo do caminho nem por isso diminuíam.
Chegando a Mongoumba, a agitação da aldeia era visível: o mercado da noite tinha acabado de abrir e nós, longe de estarmos cansadas, lá continuamos mais um pouco até encontrarmos um bom peixinho bem picante para comermos enquanto íamos nos passeando pelos bairros.
Quando caiu a noite, estávamos a entrar em casa. Que Domingo bem passado! Quanta alegria que encontramos mas também quanta preocupação em relação à Senhora Teresa e ao Senhor Ambrósio. Rezamos a Deus agradecendo o dia e pedindo ajuda para melhor conseguirmos ajudar estes dois velhinhos sem criar novas dependências.
Duas semanas depois, a nossa Teresa foi acolhida por uma família pigmeia e o Senhor Ambrósio continua a ser cuidado pelos pigmeus do seu acampamento. Quanto a nós, vamos, sempre que possível, visitar os dois e, tentamos em cada Domingo, enviar alguma comida para ajudar a Lídia e o Gabriel e ajudarem estes dois sábios da tribo.
Em cada dia, damos graças a Deus pelo dom da vida e pela vocação e Missão a que nos chamou. Em cada dia, com alegria, confirmamos que sem ELE «nada podemos fazer»!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Desafios, Sorrisos e Fé


Crescer na fé:
 o desafio de todo o missionário

Era Domingo, o calor abrasador e os valores de humidade ultrapassavam já os 80%! A Márcia e eu fomos a M’Baiki, ao centro diocesano de formação. Aí estavam alguns dos nossos professores em formação que deveriam regressar a Mongoumba.

Chegamos e participamos a sessão de encerramento da formação. Esta ainda não tinha terminado quando o céu começou a escurecer e o vento a soprar com violência.
Tentamos apressar o regresso mas, nada a fazer. A chuva batia com força contra os vidros do carro. Que fazer? No dia seguinte uma nova formação começava em Mongoumba e nós precisávamos de estar presentes. Não dava para esperar a chuva pois o bac para atravessar o rio fecha às 17 horas. Há que tentar meter-se à estrada confiando a viagem nas mãos de Deus.
Metemos as quatro-por-quatro e lá avançamos numa marcha entre os 15 e os 20 km/hora. Pouco mais que a 2km do centro de formação, encontramos uma barreira. É uma barreira que está na estrada exactamente para impedir que os veículos (sobretudo os camiões) circulem quando chove para evitar assim de estragar (ainda mais) a estrada.
O guarda da barreira veio falar comigo.
- “Ó irmã, não pode conduzir com a chuva!”
- “Eu sei” – disse-lhe eu – “mas o senhor vai ser simpático e vai-me deixar passar. Sabe bem que não são carros como o meu que estragam a estrada”.
- “Ai não sei” – continuou ele – “ordens são ordens”.
Sem me dar por vencida, continuei a argumentar:
- “Já viu que se eu ficar aqui não chegarei a tempo para atravessar o rio? Não está bem que eu não durma em casa. Ande lá!”
- “Pois… se a irmã ao menos pagasse o café à gente…”
Fazendo-me de desentendida, continuei:
- “Café? Eu aqui não tenho café! Mas olhe lá, já conhece a Márcia?” – ele olhou para dentro do carro e acenou que não com a cabeça. “Ela” – continuei eu – “é a minha nova colega e veja lá, é a primeira vês que alguém vai pará-la na barreira e ela terá de dormir na rua! Sabe como é, esta gente nova não está habituada a isto e a pobre está aqui está a chorar.”
A Márcia, numa boa interpretação do papel de menina desprotegida comoveu o homem que nos deixou continuar a viagem.
Lá seguimos sempre com todos os cuidados. A terra batida debaixo do carro parecia mais areia movediça. A um certo momento, o carro desliza e lentamente lá conseguimos parar já fora da faixa de rodagem. Entregando-nos nas mãos de Deus seguimos viagem agora numa média de 15km/hora. Foram os 80km de estrada mais longos que fizemos!
Chegamos ao bac às 17 horas em ponto. Debaixo de chuva atravessamos o rio e, com a graça de Deus chegamos a casa.
À noite, só a palavra “obrigada” conseguiu ser a nossa oração.
Em cada dia, seja a natureza ou a cultura em que estamos inseridos, conhecemos os nossos limites e experimentamos a graça da Providência Divina.
Dificuldades? Sempre! Mas a fé que nos alimenta não nos faz perder a esperança. Não vivemos a missão por nós mesmos mas por Aquele que aqui nos enviou e envia em cada novo dia.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Lei escrita no coração


«Mil vidas para a Missão»
do sonho de Comboni à actualidade

Mais de quarenta anos depois da evangelização de Mongoumba, é neste ano que se realizará, na festa da Sagrada Família, os primeiros casamentos católicos de pigmeus!
Na verdade, estes casamentos representam muito mais que a festa visível aos olhos de todos. Neste dia, 17 casais celebraram este sacramento e, pela primeira vez, pigmeus e não-pigmeus, numa situação de igualdade, partilharão os mesmos lugares de honra na Igreja e os mesmos trajes festivos!
A evangelização de pigmeus está no seu começo mas descobrimos com alegria que, culturalmente, estes possuem valores que estão muito de acordo com o cristianismo.
O Gabriel é um deles. Quando na visita a uma das capelas este jovem se aproximou do P. Jesús e lhe perguntou se não podia, também ele, casar-se com a sua mulher. O P. Jesús procurou saber um pouco mais da sua vida.
O Gabriel, a mulher e alguns dos pigmeus do mesmo acampamento, tinham sido baptizados no passado mas, de seguida, Mongoumba viveu vários anos sem padre residente e, pouco a pouco, os não-pigmeus tomaram todos os lugares na capela e na paróquia não lhes deixando muito espaço para a vida paroquial.
A nossa paróquia lançou, este ano, a ideia de fazer uma celebração única para a realização do casamento que reunisse casais de todas as capelas. Assim, o Gabriel, como outros do acampamento, querem aproveitar esta oportunidade, para celebrar, também eles, este sacramento (evitando assim as grandes despesas da festa, que serão partilhadas por todos os casais).
O P. Jesús, tentou saber um pouco mais: “A questão do dote está regularizada?” – perguntou ele.
- “Que dote? Nós (os pigmeus) não temos problemas de dote. Na nossa tradição não há nada a pagar.” – respondeu o Gabriel.
-“Mas”, continuou o P. Jesús, “ela é a tua única mulher ou há outras?”
- “Nós só temos uma mulher!”
O P. Jesús, partiu então ao acampamento com a Márcia para conhecer os outros casais e conhecer um pouco mais das suas vidas.
Este casamento que reunirá autoridades e pessoas simples será, sem dúvida, um momento abençoado para quebrar as barreiras da descriminação e descobrir novos caminhos de evangelização e de justiça para este povo que reclama o seu direito a conhecer a Cristo e a viver segundo os valores do Evangelho.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

“As grandes obras nascem aos pés da cruz”


A Cruz: O distintivo do missionário

Chama-se Francisca e faz parte dos mais de cem pigmeus leprosos que vivem em Mongoumba. Tem nove anos e uma personalidade rebelde que faz os adultos perderem a cabeça. Já o seu pai tinha estado leproso e, com o tratamento, conseguiu curar-se.
Com a Francisca, os seis meses de tratamento foram uma luta quase diária. Sem tomar os medicamentos com regularidade e percorrendo a floresta e a aldeia de ponta a ponta sem dar satisfações a ninguém, esta menina tornou-se mais que um elemento de contágio para as suas companheiras, um problema para ela mesma.
Com o tempo, apanhou outra doença – o PIAN – que é uma doença que provoca chagas em todo o corpo. Aí, cheia de dores, veio ao nosso dispensário e comprometeu-se a seguir todos os tratamentos que lhe recomendássemos.
O tempo passava e a Francisca vinha com regularidade fazer os curativos, contudo, quase todos os dias, nos chegava sem a ligadura do pé… as pessoas da aldeia roubavam-lhe mesmo a ligadura!
O nosso sentimento de limite e de impotência era quotidiano mas a esperança e a fé não nos faltavam, de maneira que íamos animando a pobre criança.
Pouco a pouco o PIAN desaparecia e as marcas de lepra também. Claro está, mesmo antes do tratamento acabar, a nossa Francisca voltou a desaparecer. A floresta é o seu mundo e, como todos os pigmeus, a sua liberdade é a maior riqueza e o maior valor que possui.
Procurei-a no acampamento e na aldeia… nada!
Passados uns meses, de visita ao seu acampamento, encontrei-a com as suas amigas de sempre. Estava linda a Francisca. Nem um sinal de lepra ou de doença. Deus seja louvado!
A batalha agora é outra: a Francisca e as suas amigas não vão à escola e, sempre rebelde, a nossa Francisca não ajuda nada as outras crianças que querem ir à escola… A ajudar ao problema, as pessoas da aldeia obrigam-nas a trabalhar os campos quase gratuitamente…
Mais uma vez o nosso limite está a descoberto: que fazer para ajudar estas crianças? Que fazer para prepará-las para lutarem contra a descriminação a que estão sujeitas diariamente?
Por aqui, continuamos nesta luta diária contra a discriminação racial que é, sem dúvida, a maior de todas as lepras que aqui temos. Confiamos, pois, o tratamento e a erradicação desta “doença” nas mãos de Deus. Contudo, sem repouso, com ELE vamos lutando em cada dia, mesmo se a experiência de limite está sempre presente. Com Comboni, neste combate, confiamos que, na verdade, como ele dizia, “as grandes obras nascem e crescem aos pés da cruz”!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O rosto da Missão


A Missão feita de pessoas concretas

- “Madame Martin” – chamava-me o velho Martin. Como todos os Domingos, antes da missa, lá veio este pobre homem que, já cego e sem família, faz da nossa casa a sua casa. Chama-se “Madame Martin”, porque segundo ele, nós ainda vamos casar. É a maneira que ele encontra de, a brincar, se sentir mais da família.
Claro que, quando somos da família, podemos permitir-nos de reclamar.
Então, naquele Domingo, a seguir às saudações enquanto tomava o café (que deve estar sempre bem quente e bem doce), o Martin começou uma habitual ladainha de lamentações:
- “Tu disseste que vinhas na segunda-feira lá a casa e não apareceste. Não me mandaste nada para comer. Eu que estive tão doente e tu nem te importaste…”
A Márcia com grande paciência lá se sentou a seu lado ouvindo as “queixas” que ele tinha da sua mulher.
Como já nos conhecemos há uns anos, quando me aproximei e o saudei perguntei-lhe:
- “Então, o que é que se passa?”
- “Ah!” – respondeu ele – “Madame Martin, eu sei que andas atarefada com a formação dos professores e que tens visitas em casa, por isso, eu estou a dizer à Márcia que tu não tinhas vindo lá a casa como tinhas dito, mas que eu percebo muito bem.”
Lá me desculpei como podia fazendo esforço para não rir da situação.
- “Depois” – continuou ele – “se tiveres aí alguma coisa para a diarreia tens que dar-me é que sabes, como não ando a comer bem, ando meio doente.”
Percebida a mensagem, disse-lhe que falávamos – como sempre – depois da missa.
Quando a missa terminou, como habitualmente, o grupo de S. Vicente de Paulo dividiu as ofertas pelos pobres e, claro, o nosso Martin recebeu o que tanto esperava.
Chegou a nossa cozinheira e, sempre disposta para a brincadeira, começou a dizer ao Martin:
- “Estás com sorte hoje. Eles deram muitas ofertas na missa.”
- “Não foi nada na missa. Foi a minha mulher que me deu.” – respondeu ele sorrindo
- “A tua mulher?” – continuou ela – “A Susana vai é casar com o meu bebé. Aliás, como é que tu pensas conseguir pagar o dote?”
Entre disputas cheias de gargalhadas de parte a parte, vendo a hora que passava, peguei no Martin pela mão e disse-lhe:
- “Ah, Martin, vai-te lá embora que o que ela tem é ciúmes.”
Todo contente de toda esta atenção, lá se levantou para regressar a casa. Mas, como nestas idades há coisas que nunca falham, enquanto o acompanhava ao portão, Martin fez ainda uma ladainha de pedidos que eu deveria aceder durante a semana.
Claro que não poderei dar resposta a todos eles, por isso, no próximo Domingo, como todos os Domingos, ainda me vou divertir com este velhinho que desde sempre vem à Missão.
Cada vez que vê uma de nós regressar ao seu país, este pobre chora a despedida. Não que o tratemos diferente dos outros pobres mas, como diz ele: “Eu sou um grande missionário como vocês por isso é que me custa vos ver partir! Vocês são a minha família!”
São estes nadas partilhados com a família que formamos cá deste lado que vão dando sentido à Missão. São estes rostos cheios de histórias e de experiências de vida que nos alegram e dão força para seguir em frente nesta missão que Deus nos confiou e confia em cada dia.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Movidos pela Esperança


Testemunhas da Esperança

Pauline era uma jovem pigmeia de 14 anos quando, durante uma tempestade, uma árvore lhe caiu sobre a perna. Nessa altura, veio à Missão pedir-nos ajuda. A Carmen, (LMC espanhola), correu para Bangui. Nos hospitais, todos eram da mesma opinião: “é melhor amputar. É a única solução.”
Longe de aceitar estas palavras, Carmen falou finalmente com o Dr. Onimus – um médico cirurgião francês que vem três ou quatro vezes por ano à República Centro Africana para operar crianças. O Dr. Onimus, propôs-se a operar a Pauline. Depois da operação, ela ficou com o gesso durante mais de dois anos. Durante este tempo ficou a viver no nosso centro de reeducação para deficientes motores.
Finalmente, chegou a hora de tirar o gesso. O osso e ferida da perna tinham cicatrizado mas a Pauline continuava sem poder andar. O tendão tinha ficado demasiado tempo esticado… Sem se deixar levar pelo desânimo, o Dr. Onimus voltou a operar a Pauline. Desta vez foi uma operação simples.
A Pauline regressou à floresta ainda que tivesse medo de andar.
- “Pode voltar a partir-se!” - Dizia ela quando a incentivávamos a andar.
O tempo passou e a Pauline, já com quase 20 anos, ficou grávida. Aos 6 meses de gestação, teve, de parto prematuro, dois gémeos: um menino e uma menina. Os dois juntos, não chegavam a pesar três quilos! Como aqui não há um verdadeiro hospital, as crianças morreram ao fim de três dias. A Pauline ficou de rastos.
Passadas umas semanas, uma senhora (também pigmeia) morreu durante o parto. Pedimos à Pauline se não se queria guardar esta criança como se fosse sua. Ela aceitou. No entanto, a criança sofreu uma infecção pós-parto tão forte e acabou por morrer ao fim de dois dias.
A Pauline não abria a boca para protestar nem chorava a perda. Estava a sofrer demasiado para querer ser consolada.
Sempre que íamos passando pelo seu acampamento, saudávamo-la e, sempre que ela vinha à aldeia, passava na nossa casa para pôr a conversa em dia.
O tempo foi passando. Ao fim de alguns meses, passando no seu acampamento, reparei que a Pauline estava grávida. Então perguntei-lhe:
- “O que se passa com a tua barriga que está tão grande? Andas a comer muito peixe ou é da mandioca?”
Envergonhada, ela sorriu. Então, mais a sério, perguntei-lhe como estava e, num gesto sem palavras, fez-me perceber que nem queria pensar no que tinha acontecido no passado. Abracei-a dizendo-lhe que tudo iria correr bem.
Graças a Deus, algum tempo depois, a Pauline veio visitar-me trazendo nos braços… a pequena Pauline de dois meses. Era grande a sua alegria em me mostrar esta bebé gorducha e cheia de saúde.
São estes os contornos do dia a dia vivido no coração da África: uma eterna luta constante pela vida onde a oração e a esperança se tornam as únicas armas capazes de quebrar a corrente do sofrimento e da morte.
Com a Pauline, conhecemos a dor e a luta pela sobrevivência. Mas, como ela, recebemos de Deus o conhecimento e o sabor da vida quando esta é vivida com fé e esperança.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Ramadão: festa cristã(?)


Ser Cristão é ser Missionário

Era a festa que anunciava o fim do Ramadão. A Comunidade Muçulmana celebrava o fim de 30 dias de jejum e de sacrifícios. Para nós, era tempo de vencer barreiras e lutar pela boa continuação das nossas relações.
É certo que, por aqui, nunca tivemos problemas ligados à luta de religiões, mas há que continuar a evangelizar “a tempo e a contra-tempo”.
Assim, convidamos as crianças muçulmanas a celebrar connosco esta festa.
O dia era chuvoso e ninguém chegava à Missão. A Márcia e eu que estávamos a tentar acabar de pintar uma das nossas escolas e íamos estando atentas ao que ia passando no caminho. De repente, umas trinta crianças muçulmanas, com gargalhadas bem sonoras, corriam em direcção à nossa casa.
Com as mãos bem cheias de tinta, corremos nós também, para as recebermos.
A Márcia pegou na saca dos rebuçados (que tínhamos preparado para esta ocasião) e eu na máquina fotográfica. Fomos todos para o jardim da casa e lá, no meio de cânticos e danças árabes fizemos a festa.
As crianças, os rebuçados e a máquina fotográfica foram ganhando as cores com que eu e a Márcia estávamos a pintar a escola e, como qualquer grande família (onde todos são ilhós do mesmo Pai), à noite os pais destas crianças enviaram-nos um dos pratos típicos desta época. Um gesto simbólico que é para nós um símbolo de paz e de fraternidade.
Neste mundo onde a luta de religiões é constante, a nossa identidade, aqui deste lado, não se perde, ao contrário, é o respeito pelas nossas diferenças que nos unem e nos fazem crescer.
Sem fanatismos nem descriminação, vamos traçando novos caminhos de paz onde todos podemos festejar juntos o Deus da Vida.
Nas nossas escolas católicas, as crianças muçulmanas são também uma presença constante. Com elas, sem conflitos, rezamos e partilhamos a alegria de ser Filhos de Deus.
Também aqui, as crianças, num espírito missionário, partilham o entusiasmo de aprenderem e celebrarem Jesus – o Filho de Deus.
Em muitas das visitas do nosso presidente da Câmara (muçulmano) à Missão, discutimos com amizade sobre os pontos que nos unem, não procurando reduzir a nossa dimensão religiosa ou a nossa fé mas procurando, naquilo que nos une, novos caminhos de paz para todos, independente da religião a que pertencemos.
Recordo as suas palavras quando veio à nossa igreja para assistir à chegada oficial da nova comunidade comboniana, na presença do bispo e de toda a comunidade cristã, este muçulmano ousou subir ao altar e com voz forte dirigiu-se à Comunidade Cristã:
- “Saúdo-vos em nome de Cristo” – disse ele – “Hoje a Igreja Católica é abençoada com a chegada destes dois padres. Peço-vos que os acolhais bem e que não haja nem na vossa vida nem na vossa oração, divisão ou discórdia. Sede coerentes com o que diz a Igreja e com a Palavra de Deus”
Porque somos cristãos, que a nossa coerência nos leve, pois, num espírito missionário, a celebrar com alegria o Deus da Vida com todos os que nos estão ora mais próximos ora mais afastados.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Acreditar é viver do Espírito


Creio no Deus Criador!

Chama-se Persa e tem quatro anos. Naquele Domingo, vencendo a timidez tão típica desta idade, à saída da missa veio na minha direcção e, olhando-me bem nos olhos disse: “quero ser baptizada!”
À minha volta circulavam os jovens que tinham sido baptizados no Domingo anterior. Vestidos com a mesma veste branca do dia do Baptizado, eles tinham percorrido 20km a pé para participar na Eucaristia.
Persa, sem dúvida impressionada com esta manifestação de fé, queria, ela também, ser baptizada.
Aqui os baptismos são preparados com uma catequese específica que começa quando as crianças têm já dez anos, por isso, todos se começaram a rir do pedido desta criança, que, com os olhos esbugalhados, continuava a fixar-me sem dar grande importância às reacções dos mais velhos.
Baixei-me e, bem perto dela, disse-lhe:
- “Não percebi bem. O que é que tu queres?”
- “Ser baptizada!” – respondeu ela.
As gargalhadas dos que nos rodeavam fizeram-se sentir de imediato. Para mim, um pedido destes não é caso para rir. Então, peguei-lhe na mão e, alto para que todos ouvissem, disse-lhe:
- “Se queres ser baptizada vamos ver o senhor padre.”
Todos ficaram estupefactos, interrogando-se se o padre iria baptizá-la.
Fui com ela à sacristia e, quando saiu toda a gente, disse ao P. Giuseppe que a Persa tinha algo a pedir-lhe. Ele sentou-se fazendo um gesto à criança para que ela se manifestasse. Persa, com coragem e determinação, repetiu as mesmas palavras: “quero ser baptizada”, disse ela.
O padre olhou-me perplexo e, encorajando-a, explicou-lhe, de uma maneira simples, a importância do baptismo e que, por isso mesmo, a Persa teria de começar a frequentar um grupo que temos cá na paróquia para os pequeninos desta idade – “As crianças da paz”.
Ela confirmou que já estava a frequentar o grupo. Na verdade, a mãe dela é uma das animadoras paroquiais deste grupo.
Assim, dizendo-lhe para continuar nesse caminho, lá fomos fazer uma foto de grupo com os novos baptizados e com a Persa.
Não é fácil encontrar esta determinação nas crianças e jovens. Mas, porque Deus opera sempre no coração do Homem e faz maravilhas que nós não podemos sequer pensar ou imaginar, Persa ficou encantada com o exemplo e testemunho destes jovens que ousaram dizer NÃO à celebração da Palavra nas suas capelas para dizer SIM à Eucaristia dominical (mesmo se isto significou percorrerem 20km a pé).
Esta manifestação de fé faz-nos questionar sobre o testemunho de fé que damos. Seríamos nós capazes de caminhar 20km todas as semanas para participar na missa? Seríamos nós capazes de afirmar publicamente a nossa fé e a nossa concordância com o que é estabelecido pela Igreja?
Este exemplo cristão é força e desafio para dizermos, com a nossa própria vida: “Eu Creio!”

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Tudo em família


A Família Comboniana
ao serviço da Promoção Humana

O encontro estava marcado para aquela Terça-feira às três da tarde. O Sol era abrasador mas as cadeiras metidas à sombra das casas era o suficiente para que a nossa espera se torna-se mais agradável.
Naquela tarde, a nossa comunidade LMC com a comunidade de combonianos aqui presente, partimos para um dos bairros da aldeia para tentar recomeçar a trabalhar com esta Comunidade Eclesial de Base (CEB) que estava parada já há mais de 5 anos.
Esta comunidade, “apadrinhada” por S. Kizito, tem mais de 150 cristãos. Aqui, tentamos, com eles, ler a realidade a partir da Palavra de Deus.
Nesta tarde, poucos foram os que apareceram ao encontro mas isso não impediu a boa disposição de todos que, ora com a Márcia ora com o P. Jesús, iam deliciando-se com as fotografias que íamos fazendo.
Às quatro da tarde, éramos apenas uns vinte a estar presentes. Que fazer? Esperamos mais uma meia hora e, como ninguém mais se aproximava, rezamos juntos pedindo ajuda para esta CEB e para a Paróquia.
Nesta Terça-feira, não podemos eleger os líderes desta comunidade mas conseguimos, com os poucos presentes, descobrir dificuldades e soluções para o seguimento deste projecto pastoral.
Nesta comunidade, vive a família de um dos padres locais. A mãe – Carlota – apesar da idade e de viver sozinha há vários anos (o filho padre é o único que continua vivo), continua a ser um exemplo de força e de fé sobretudo no grupo de Legião de Maria aqui da Paróquia. É também ela que ajuda o seu irmão – Francisco – mais velho que ela e que, desde tenra idade ficou cego e paralítico após uma vacina mal dada…
Este velho, na sua cadeira de rodas e com todas as suas limitações, é catequista e um dos grandes animadores da liturgia. Só ele para saber de cor todas as leituras da missa e, claro, toda a história da Paróquia.
Assim, com estes “arquivos” vivos da história paroquial, esta tarde quente de Terça-feira tornou-se mais do que uma simples espera (por quem nunca chegou), ao contrário, tornou-se num convívio fraterno onde as lembranças do passado se misturavam com a vida actual.
O desafio está lançado e esta comunidade, com o Senhor Francisco e a Senhora Carlota, tem a oportunidade de recomeçar em favor de um desenvolvimento que caminhe de acordo com as páginas do Evangelho – um desenvolvimento que seja para todos independentemente da idade, raça ou condição física.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A porta da Fé? A Esperança e o Amor!


A fé: A força que nos move!


É um bocado difícil de prever o que acontecia às tantas crianças pigmeias de Kpetene se não houvesse uma escola no centro do acampamento. Na verdade, criamos esta escola a 5km da aldeia, em plena floresta, pois, todos os anos, estas crianças que aqui vivem, ao tentarem chegar à escola da aldeia eram desviadas para trabalhar os campos dos não-pigmeus. Estas crianças, de 5 a 7 anos, eram demasiado pequenas para se escaparem às mãos dos adultos e prosseguirem caminho. Assim, há três anos que esta escola oferece os dois primeiros anos de escolaridade.
Um dos problemas com que nos deparávamos era que, dada a humidade da floresta, o quadro da escola deteriorava-se muito depressa… que fazer? A escola nem sequer tinha muros para uma maior protecção!
Animamos os pais a construírem um muro que protegesse o quadro…
Uma manhã, como tantas outras manhãs, a Augusta partiu a Kpetene para visitar a escola e, qual não foi o seu espanto: um muro tinha sido feito quase até ao teto!
Que alegria! Sem pensar duas vezes, a Augusta foi partilhar a sua alegria e entusiasmo com os pais e alunos desta escola e claro no seu regresso, com ela vieram uns dez alunos que, com alegria, preparavam-se para regressar com o novo quadro da escola que, desde há alguns meses, os esperava na Missão.
A Augusta ia-lhes dando alguns conselhos pelo caminho e encorajando-os a continuar a construir a escola com os meios que eles tinham na floresta.
Quando chegaram, a Augusta bebeu e deu a beber aos garotos um pouco de água fresca e deu-lhes o quadro com todas as recomendações que se devem fazer a crianças que levam um quadro escolar para o meio da floresta densa!
Actualmente continuamos a animá-los a continuar o muro da escola e um novo grande quadro espera na Missão para ser levado para Kpetene logo que as condições para a sua instalação estejam reunidas. Agora, incentivamos pais e alunos a arranjarem também novos bancos e mesas (de acordo às possibilidades existentes na floresta).
Esta escola é, para nós e para os que aqui estudam, uma fonte de esperança que não nos deixa baixar os braços, ao contrário, mesmo se foram precisos dois anos para levantar um muro, acreditamos que o tempo será também, com a ajuda de Deus, o necessário para levantar o orgulho deste povo face à descriminação dos demais.
Em cada dia, constatamos que viver a Missão não é uma questão de coragem mas uma questão de fé – a fé que porta e mantém acesa a chama da esperança!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Gargalhadas na floresta


Ao serviço do Evangelho

Naquela manhã de Quinta-feira, posemo-nos ao caminho rumo a Bassin. Um acampamento de pigmeus a 3km de casa. Não se tratava de uma visita “profissional” ou do acompanhamento das actividades que levamos a cabo nesta zona. Ao contrário, era uma visita aos amigos!
Como íamos a pé, ao longo do caminho, as crianças vinham a correr saudar-nos e os adultos sempre nos faziam parar a marcha para pôr a conversa em dia. De tempos a tempos, lá surgia alguma criança que, não estando habituada aos brancos, fugia de nós a chorar como se estivesse a ver um fantasma. Este pequeno “trauma” para a criança, tornava-se origem de gargalhadas bem animadas em todo o bairro.

Quando chegamos ao nosso destino, o acampamento encontrava-se praticamente vazio. Todos tinham partido ao interior da floresta para apanhar as larvas das árvores. Na verdade, esta é a época de as apanhar e de fazer um bom comércio ou se deliciar com o petisco. No entanto, encontramos uma família que ainda estava nos últimos preparativos para a partida.
Lá passamos um bom bocado na conversa e entre risos e algumas fotos lá fomos percebendo as dificuldades com que os pigmeus se batem sempre que abandonam o acampamento nesta altura: têm de transportar tudo quanto possuem (ainda que não tenham praticamente nada) encontrar meios para conseguirem levar para a floresta um pouco de sal e algum saco para trazerem as larvas.
É preocupante esta época, na verdade, quando regressam da floresta, vêm bastantes doentes e, esta altura que deveria ser de grande abundância e alegria torna-se num momento de dor e de perda.
Aproveitamos, pois, esta ocasião, para sensibilizar para a saúde, mas também para aconselhar para serem prudentes no momento de venderem as larvas (normalmente, os não-pigmeus tentam roubá-los ou pagar muito pouco por este petisco).
Assim, passando pela escola e fazendo ainda mais algumas fotos, regressamos a casa.
No regresso, as pessoas que nos tinham visto à ida, praticamente esperavam a nossa volta.
Sempre por meio de saudações, quase a chegar a casa, uma das responsáveis pela iniciação à catequese na nossa paróquia, parou-nos e, sempre bem-disposta, ia-nos pedindo ajuda e dando ideias para o trabalho pastoral que realiza. Aproveitou também para partilhar-nos os problemas familiares que estava a viver, (a filha grávida sem marido, o seu marido que tinha arranjado outra mulher, etc), pedia-nos para rezar.
A nossa manhã chegava ao fim mas a alegria e a esperança que vivemos e partilhamos ao longo deste passeio matinal, fez-nos reflectir sobre a nossa acção nesta terra de missão, sobre o que fazemos e o que somos. Na verdade, este passeio a pé, tornou-se ponto de encontro e de partilha de alegrias e preocupações. Nesta caminhada não levamos nada (nem alforge nem cajado), mas Deus proporcionou-nos momentos em que podemos dar aquilo que somos: a nossa Esperança e os nossos limites. Não podemos fazer milagres? Talvez! Mas estes foram, sem dúvida, momentos privilegiados em que podemos anunciar a Boa Nova aos pobres e aos prisioneiros a liberdade!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O segredo da mulher – ser mãe!


A mulher – o alicerce do desenvolvimento africano


Chama-se Rosaline, tem trinta e poucos anos, cinco filhas e tem SIDA. Em M’baïki detectaram-lhe a doença e sugeriram-lhe que deixasse o bebé de um mês e partisse para morrer em casa, pois, não deveria sobreviver mais de uma semana.
Em vez de seguir o conselho, esta mulher caminhou com a sua bebé nos braços durante 80km e chegou-nos à Missão. Encaminhámo-la ao hospital e demos leite para a criança.
Algumas semanas depois esta mulher estava, aparentemente, bem. Recuperou as forças e recomeçou a vender os produtos do seu campo no mercado para ter algum dinheiro para sustentar as cinco filhas. O marido, esse, partiu para o Congo e nunca mais regressou.
Nesta mulher nunca se descobre um olhar triste, ao contrário, sempre sorridente e cheia de garra, faz face aos problemas que vão surgindo.
Hoje, um ano depois, esta mulher continua, com a graça de Deus, a trabalhar e a cuidar das suas filhas. Sempre sem desistir e sem desesperar com as novas doenças que vão surgindo.
As meninas têm no olhar uma sombra de tristeza mas que não as impede de avançar e se, sorrindo, nos pedir ajuda para poderem ir à escola.
Esta é uma das muitas histórias das mulheres que aqui encontramos.
Sempre cheias de força e de vida, são inúmeros os exemplos de vida como o da nossa cozinheira que, apesar de ser casada é ela que, depois do trabalho, vai ao campo e, chegando a casa, mete os produtos do campo à venda, prepara o jantar para os seis filhos e, caso o marido se meta em alguma confusão, é ela que o vai tirar da cadeia.
Neste país, a mulher, independentemente da sua etnia, e sem ter consciência disso, é a base do desenvolvimento social e o “motor” dentro das diferentes religiões.
Aqui, onde as mulheres são consideradas como inferiores em relação aos homens, é com alegria que a nossa Missão tenha sido sempre maioritariamente formada por mulheres. Nos últimos 11 anos, 8 mulheres LMC passaram por esta casa partilhando a vida destas mulheres que, acreditando no desenvolvimento, se negam a baixar os braços diante das dificuldades.
Se é verdade que por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher, neste continente, precisamos de grandes homens que sejam dignos de tão grandes mulheres!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nas correntes da morte


A Morte vista a partir da Missão

A Maria Natal é a nossa cozinheira. Quando soubemos que estava grávida, alegramo-nos com ela e, apesar do muito trabalho, passamos os nove meses em expectativa e alegria. Eu dizia-lhe sempre, “vamos lá a ver se é um rapaz para ver se assim ainda posso entrar na tua família!” De brincadeira em brincadeira, o tempo passou e ela deu à luz este rapagão de mais de 4 quilos!

Chamou-lhe Abdias (como o profeta) e sempre dizendo que este seria o meu marido ia fazendo a inveja de todas as mamãs que vêm com os seus pequeninos à Missão. Assim, pouco a pouco, Abdias tornou-se o primeiro dos meus “maridos”.
Claro que, partilhando o dia a dia com este bebé que não tinha lá grande saúde, este chegava a chorar e a fugir dos braços da mãe para se lançar nos meus braços.
Um dia, a febre atacou e pouco a pouco foi-se formando uma grande micose na boca. Sem medicamentos adequados em Mongoumba, sugerimos à mãe que o evacuássemos. Ele encontrava-se tão debilitado que lhe sugerimos ir, não de carro (com as estradas que aqui temos) até Bangui, mas ir de canoa até Libenge (no Congo) onde se encontra um hospital gerido pelas irmãs de S. José.
Ela não apreciou a ideia, pois, segundo a tradição, o rio é cheio de feitiços e poderia, assim, ser fatal para o bebé. Também o responsável pelo hospital quase a proibiu de tirar o bebé dali dizendo que ele possuía todos os meios para o salvar.
Os dias passaram e a micose espalhou-se pelo corpo todo. O nosso Abdias partiu para Deus antes de completar dois anos de vida.
No dia seguinte, fui visitar a mãe que, abraçando-me gritava por meio de soluços: “eis que o casamento não será feito”, esta era a sua forma de dizer que todos os sonhos e tudo quanto vivemos com este menino estavam terminados.
Passado mais alguns dias, agora com um pouco mais de serenidade da sua parte, respondi a este grito com uma mensagem de esperança.
Na verdade, aqui na Missão, a morte é uma constante e torna-se sempre uma força para lutar em favor da justiça para que muitos outros “possam ter Vida e tê-la em abundância”.
Hoje, a Maria Natal tem mais um bebé, chama-se Daniel (em honra de Daniel Comboni) e, continua a brincar com um novo casamento. Nada mudou? Não! No seu coração Abdias continua vivo e, ao contrário do que acontecia, quando questionada ao nível das autoridades sobre a competência do pessoal do hospital, esta mulher não tem medo de responder de acordo à realidade. Não o faz por vingança, antes, como ela mesma diz: “se eles (os do hospital) souberem o que eu disse e se quiserem vingar, que se vinguem. Eu morro mas a verdade é a verdade”.
Sejamos, pois, nós também, no nosso dia a dia, capazes de, sem medo de represálias, gritar a verdade em favor da Vida. Conto convosco nesta luta!