sábado, 20 de outubro de 2012

Uma viagem… uma aventura


A 1.000KM DE CASA…

 Os últimos meses têm sido de grande emoção: a chegada da Márcia, a partida da Márcia para aprender o sango, as primeiras reuniões paroquiais com os responsáveis das capelas e a nova comunidade de combonianos que se instalou a Mongoumba, os quase 20.000 “refugiados” vindos do Congo e as dezenas de ONG’s que aqui se instalaram…
     Longe de nos deixar-mos levar pelo cansaço e aproveitando os 12 anos de presença dos LMC em Mongoumba, decidimos levar a cabo a primeira Assembleia Geral de LMC na RCA.
     Esta Assembleia pretendeu recuperar a história dos LMC em Mongoumba e fazer uma avaliação do caminho que percorremos: o passado, o presente, o futuro imediato e as perspectivas de futuro. Aproveitamos também este tempo para debater algumas inquietações que existem a nível do Instituto Comboniano ; inquietações que ressurgem no último Capitulo dos MCCJ e que nos parecem pertinentes (a carta comunitária ; a animação missionária ; a promoção do lacado africano…)
Como a Márcia faz o estudo de sango em Kembe (numa comunidade de irmãs combonianas, a 850km de Mongoumba), aproveitamos para chegar até Bangassou (a 1.000km de casa) para esta Assembleia.
    Desta Assembleia surgem vários documentos que serão revistos e oficializados que depois colocaremos à vossa disposição, mas, pelo momento, cá ficam as aventuras da viagem e dos bons momentos livres que passamos a leste deste país.
    A aventura começou antes de deixar Mongoumba. Na verdade, no dia em que tínhamos previsto partir, o bac estava avariado e não podemos atravessar o rio… No dia seguinte, depois de várias tentativas para o fazer, o chefe do bac comunica-nos que não nos poderá passar, porque ainda continuam os trabalhos para arranjar o bac.
    A Augusta já com vontade de regressar, conseguiu ver os frutos da sua paciência. Uma autoridade chegou e, claro, como nestes casos dá-se sempre um jeito, lá conseguimos, atravessar o rio.
     Chegamos a Bangui pouco antes do meio-dia. Estávamos cansadas e ainda faltavam 800km a percorrer. Entramos na casa provincial, comemos e seguimos viagem (não sem antes fazer umas comprinhas para a Márcia).
     Quatro horas depois, (sempre por uma estrada desconhecida), chegamos a Grimari. Uma paróquia onde estão os combonianos. Eram já quase cinco da tarde e o sol já estava a esconder-se. Perguntamos se haveria espaço para nós e, com um sorriso aberto disseram-nos: “para vocês haverá sempre lugar!”. Graças a Deus! Nós já estávamos bem cansadinhas dos 500km que tínhamos percorrido! Com a comunidade (que se encontrava com o provincial), rezamos, comemos e, depois de passarmos alguns momentos juntos, sem demoras, fomos deitar-nos.
      Eu fiquei no quarto com a Maria Augusta. Atirámo-nos para a cama e já com a luz apagada a Augusta levantou-se para ir buscar água. Mal abriu a porta do quarto, ouvi o Padre que lhe dizia: “Augusta, olha para o carro, vocês têm um furo.” Eu, sem me mexer da cama, só pensei: “graças a Deus que foi aqui e não no meio da estrada!”
      Pronto, no dia seguinte, como desde o início da viagem, lá atrasamos a partida. O pneu foi arranjado e, quase duas horas depois do previsto, lá continuamos o caminho.
      A estrada estava bastante perigosa, a areia era muita e era suficiente um pouco mais de velocidade para o carro deslizar, tinha também muitas curvas e muitas lombas, subidas e descidas intermináveis que faziam ora “morrer” o carro ora aumentar a velocidade… a visibilidade era nula e a seguir a uma lomba nunca sabíamos o que íamos encontrar… Para o trajecto, tentamos fazer sempre uma média de 200km cada uma de maneira a, sem pararmos, irmos descansando da condução. No entanto, a Augusta apanhou sempre os piores lugares da estrada. Para mim ficou só uma aventura com um galo que tentou atacar o carro e acabou por se esborrachar contra o pára-brisas.
       Entre as 15 barreiras que passamos, conto-vos o que se passou a 680km de casa. A Augusta conduzia, um calor abrasador fazia-nos estar mais cansadas do que era previsto. A sede era muita e a água que tínhamos estava tão quente que se juntasse-mos umas ervas dava para fazer chá! Eis que nos aproximamos da barreira. Só mesmo a 2 metros dela é que tínhamos sombra. A Augusta, claro, parou na sombra, mas, o militar que controla a barreira, achou que nos aproximamos demasiado. Começou a gritar e a mandar-nos recuar. A Augusta assim fez. Ele aproximou-se de nós sempre a gritar e nós pedimos desculpa tentando explicar que só queríamos aproximar-nos da sombra. Nada a fazer. Ele gritava cada vez mais. Não aceitava nem explicações nem desculpas. Depois, num tom de poucos amigos, pediu a carta de condução à Augusta (quase sempre quando pedem os documentos é multa certa). A Augusta deu-lhe. Ele olhou para a carta e perguntou: “Maria Augusta, é você?” A Augusta disse que sim. Não sabemos porquê mas, ele abriu um sorriso enorme, desejou-nos boa viagem e deixou-nos passar…
      Como já vem sendo hábito, sempre rezamos o terço e nos confiamos nas mãos de Maria para que a viagem se passe pelo melhor.
      Seis horas depois de deixar Grimari, chegamos a Kembe. As irmãs acolheram-nos de braços abertos e, depois do almoço e já com a Márcia connosco, continuamos viagem.

O céu começou a escurecer… o vento assobiava e fazia as árvores agitarem-se… em plenas três horas da tarde tivemos de acender as luzes (mais uma vez a Augusta a conduzir). Caíram as primeiras gotas… e logo outras se seguiram com violência. Começamos a rezar o terço mas, logo a seguir ao primeiro mistério, a violência da chuva e do vento era tal que não podíamos continuar. Os buracos da estrada enchiam-se de água e subiam até ao pára-brisas como um tsunami que nos engolia tirando-nos a visibilidade e fazendo o carro deslizar.
Paramos num lugar longe das árvores e continuamos a rezar o terço. De um lado, as casas pareciam ilhas no meio de tanta água que se ia estagnando entre elas, do outro lado da rua, uma Igreja… nos meus pensamentos, o salmo 144 «O que é o homem para que te lembres dele? O filho de um homem para que contes com ele? O homem não é senão um sopro…». O barulho da tempestade era tal que quase não nos conseguíamos ouvir. À porta de casa mais próxima, olhos curiosos tentavam perceber se quem vinha no carro iria passar ali a noite…
Estávamos já no quarto mistério quando a chuva acalmou um pouco e o céu ficou um pouco mais claro. Arriscamos continuar. A chuva parou. Parecia que não haveria mais atrasos, afinal só faltavam 35km. Finalmente chegamos a Bangassou, onde o bispo tinha ficado de nos receber, o bispo tinha partido e parecia que alguns imprevistos nos deixavam quase sem sítio para dormir. Claro que isso não aconteceu. Graças às irmãs de Gran Rio e aos Combonianos aí presentes, lá jantamos e dormimos descansadas. No dia seguinte, instalamo-nos no espaço onde o bispo tinha reservado para nos acolher.
      Devo dizer que, a preocupação do bispo (que tentou nos acompanhar sempre através do telemóvel), o acolhimento das irmãs de Gran Rio e a disponibilidade dos padres combonianos, encheram-nos de alegria e fizeram-nos sentir de verdade orgulhosas da Família Cristã a que pertencemos.
 No último dia da Assembleia, visto que já estávamos mais livres, fomos, com os padres combonianos, visitar os vários projectos da Diocese: a escola técnica (costura, agricultura, apicultura e carpintaria), o “Bom Samaritano” – que é um centro para leprosos, para doentes de Sida e para idosos acusados de bruxaria. Com a irmã Marcela – Gran Rio –, fomos à prisão e participamos no encontro semanal que ela faz com os presos. Foi bom sentir o pulsar da pastoral aqui deste lado. Na verdade, tanto Gran Rio como Combonianos, na sua humildade e pobreza, mostraram a riqueza de coração que eles oferecem cada dia a este povo.
     Caso pensem que as aventuras do carro terminaram, enganem-se! Neste último dia, para visitar-mos todos estes projectos, pegamos no carro, ou melhor dizendo, tentamos pegar no carro… como ele não deu sinais de vida, chamamos o mecânico para carregar a bateria. Saímos e, uma hora depois, estávamos a empurrar o carro!
A ponto de regressar a situação apresenta-se bastante confortável: a bateria do carro está completamente descarregada, o gasóleo acabou na bomba de gasolina desta terra e nós só temos mais 1000km a fazer para chegar a casa. Mas, com fé, esperança, alegria e espírito desportivo, o regresso a casa, será certamente uma história para outro dia.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vocação – a alegria do ser chamado!


“O olhar de um leigo diante do sacerdote missionário"

Naquela manhã de Domingo, o Pe. Luigi Matiazzo, pároco em Mongoumba, na República Centro-africana, saiu de casa bem cedo rumo a uma das capelas da paróquia. Esperavam-no uns 30km de estrada seguidos de uma hora em canoa para chegar à pequena comunidade cristã de Sedale.
Como já é costume, porque a estrada é difícil e o tempo de canoa é considerável, aproveitou-se para enviar com ele o animador da CARITAS que devia fazer uma reunião com os chefes da aldeia por causa do Posto de Saúde que continua a ter problemas graves de funcionamento.
Assim, partiram eles antes das seis da manhã. A missa e o encontro com os cristãos passaram-se bem, assim como a reunião para regularizar o funcionamento do Posto de Saúde, mas… à hora de regressar, o céu ameaçava pregar uma partida a este missionário. A tempestade começou estavam eles no meio do rio. Os relâmpagos iluminavam o rio enquanto a chuva e o vento iam tornando esta viagem em canoa mais longa e difícil que o costume.
Chegados a Mongo, a pequena aldeia onde tinha ficado o carro, era já de noite. Impossível de se meter ao caminho. A ponte, a poucos metros de distância tinha caído e o barco que serve para atravessar o rio para chegar a Mongoumba, não funciona durante a noite. Que fazer? O animador da CARITAS encontrou facilmente abrigo em casa de familiares e o nosso Pe. Luigi… contentou-se com o banco do carro após um dia quase sem comer.
Neste ano que o Papa chamou “Ano Sacerdotal”, sobretudo em terras de Missão, o sacerdote tem um valor muito especial, por isso mesmo, a sua responsabilidade face aos demais é enorme.
Os sacerdotes missionários, aqui no coração da África, vão-nos recordando, a nós leigos, da verdadeira razão da nossa acção e vão nos dando, através das suas vidas, coragem para avançar neste Plano de Deus a que fomos chamados.
Damos, pois, graças a Deus por continuar a chamar gente ao sacerdócio e, sobretudo, ao sacerdócio missionário. Que o Espírito Santo abençoe a Missão com mais sacerdotes e que, com esta vocação, eles possam continuar, em cada dia, com fé e alegria, a dar o seu SIM em favor dos mais pobres do mundo: em favor daqueles que ainda não conhecem a Cristo.
Neste tempo, dito de “crise de vocações”, alegramo-nos com a proposta de Bento VI para 2010 e esperamos que, este ano seja um ano de graça para todos aqueles que, com fé e coragem, se consagraram inteiramente ao serviço de Deus e da Igreja em favor dos mais pobres.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Aprender da/com a diferença


“O desafio da inculturação:
A diversidade de culturas na Missão."

David era um bebé pigmeu órfão que a missão ajudou a guardar durante alguns meses mas que, por negligência médica morreu com 18 meses. Naquele Domingo a Lídia (uma pigmeia que trabalha connosco) veio mostrar-nos o acampamento do David.

Na verdade, um cooperante tinha vindo visitar a nossa missão com a sua irmã e nunca tinham visto um acampamento pigmeu. Assim, lá fomos e chegando ao acampamento todos tinham já partido para a floresta, estando as “casas” vazias.
Entrei na casa do David e ao ver um monte de terra debaixo do sítio onde os avós do pequeno dormem, perguntei à Lídia o que era aquilo. Ela disse, baixando os olhos: “É o David”. Percebi, então, que aí o tinham enterrado.
Voltamos para casa. Durante o caminho perguntei-lhe a razão para enterrar a criança no sítio onde se dorme e ela respondeu: “Ai Susana, já estás a perguntar demais”. Mas como eu permanecia em silêncio, ela continuou: “Os bebés são sempre enterrados dentro de casa, para estarem protegidos da chuva, e debaixo da “cama” para que a mãe continue a dormir com o seu bebé”.
Interessante a explicação mas agora era a vez da Lídia perguntar. “Este rapaz e esta rapariga que vieram connosco” – perguntou ela – “são casados?”
-“Não. São irmãos.” – Respondi eu.
Como a Lídia parecia não acreditar eu expliquei que eles mesmo irmãos – filhos do mesmo pai e da mesma mãe e que era normal esta boa relação entre eles.
Ela ficou surpreendida e perguntou se, na minha terra, era normal que os filhos fossem sempre do mesmo pai e da mesma mãe e tentava compreender a nossa “organização” familiar. Às respostas que eu ia dando, a sua reacção era um misto de admiração e de análise.
Assim, nesta partilha de experiências e de culturas chegamos a casa, as duas contentes de conhecer um pouco mais da vida e do “mundo” uma da outra.
A cultura e as tradições dos pigmeus permanecem bem guardadas e escondidas dos olhos curiosos de quem visita este povo.
A Lídia só respondeu às minhas perguntas devido à relação pessoal que temos e pela amizade que se foi formando entre nós nos últimos anos.
As suas respostas em relação à sua cultura, fizeram-me perceber que só amando um povo se pode chegar a conhecer e a compreender a sua cultura. Na verdade, na Missão, o Amor é a base da inculturação e o motor do desenvolvimento.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O Amor gera Vida!


“Está escrito: Amarás!
A Missão na luta contra tradições e crenças que levam à Morte."

Como outros países africanos, na República Centro Africana as crenças na feitiçaria ou bruxaria são a base de múltiplos aspectos sociais.
Aqui, pelo menos por enquanto, mesmo a lei condena os casos de bruxaria, ainda que não consiga explicá-la. Normalmente são as pessoas idosas e já sem família que são acusadas de bruxaria e, sem se poderem defender, ou são, judicialmente punidas ou são queimadas vivas em praça pública.
Dou-vos o exemplo da Catarina. Uma senhora idosa que se viu expulsa da sociedade devido a acusações de bruxaria e que, há pouco mais de um ano, foi acusada e levada a tribunal por ter morto, através da bruxaria, alguém.
Na verdade, o julgamento foi feito aqui a Mongoumba e, graças a Deus, neste momento, podemos contar com um bom representante do Ministério Público. Assim, devido a falta de provas e à incoerência dos testemunhos, Catarina foi posta em liberdade. Claro que, para todo o povo, ela é uma bruxa perigosa e, só permanece viva graças a este julgamento em que, o Procurador da República responsabilizou publicamente a família acusadora de tudo o que pudesse acontecer a esta idosa.
Nesta sociedade, deixou-se de ir à bruxa para procurar um remédio caseiro, passou-se a ir à bruxa para encontrar o responsável por algo de mau, seja por uma doença ou por um acontecimento negativo.
Actualmente, tentamos, com a ajuda de alguns (poucos) centro-africanos, lutar pela alteração da lei em vigor e por uma maior sensibilização para o problema entre os meios médico-hospitalares. A nível da Igreja, tentamos sublinhar a cada instante a máxima: Não matarás!
No entanto, a tarefa não é fácil, já que, em todas as áreas esta raiz cultural parece ser a mãe de todas as formas de pensar. Assim, os obstáculos multiplicam-se no mundo político, jurídico e mesmo religioso.
O problema máximo desta crença é que se trata de um alicerce de morte dentro da sociedade. Tudo se justifica com o injustificável. Todos os velhos ou crianças órfãs são susceptíveis de serem acusados de bruxaria e de sofrerem, como consequência da acusação, a total discriminação social e a morte.
Unamos, pois, todos os esforços e orações em favor do desenvolvimento e, sobretudo, em favor da Vida.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Sob(re)viver


“Educação para todos: mito ou realidade?"
 
Setembro chegou. Por aqui, estamos longe de ter uma entrada escolar cheia de materiais escolares e de entusiasmo. Na verdade, para trás não ficaram as férias mas, dois meses de trabalho duro!
O João é um dos nossos melhores alunos. Este ano, se tudo correr como previsto irá terminar a escola primária. Ele habita num acampamento a 4km da escola. Todos os dias, ele faz este trajecto pela floresta e consegue ser sempre um dos primeiros a chegar.
Logo após a festa da escola, no início de Julho, o João, como todas as outras crianças pigmeias, partiu para o interior da floresta, onde permaneceu até agora. Na verdade, nesta altura do ano, todos se dirigem ao coração da floresta em busca das lagartas de certas árvores que são muito boas e nutritivas. Durante este tempo, não há tempo para diversões. Há que levantar cedo e pôr-se ao trabalho. Também está fora de questão ficar doente ou parar para rever o que se aprendeu durante ano escolar que terminou. Aqui, vigora a “lei do mais forte”, a “lei da selva”: a lei da sobrevivência! Após esta longa estadia em condições estremas e sem nenhuma assistência sanitária, muitas crianças, jovens e adultos acabam por perder a vida. Na verdade, tanto tentam não abandonar os locais onde podem recolher alimento para algum tempo e a possibilidade de vender estas lagartas fumadas na aldeia, que acabam por atingir o limite da resistência física e sucumbir à doença.
Não se trata de uma escolha, trata-se da maior possibilidade de conseguir algo para sobreviver, este é, para os que “sobrevivem” o momento mais “rentável” do ano.
O nosso João já regressou, este ano ainda está nas escolas seguidas pela missão. Para o ano que vem, ele com os seus colegas de turma, passarão o desafio mais duro das suas vidas: entrar na escola pública! Aí, vigora a “lei da discriminação”, a “lei da greve do professor”: a lei da sobrevivência!
Deste desafio, muito poucos “sobrevivem”, muitos no passado abandonaram a escola neste primeiro ano no ensino público, muitos tornaram-se mão-de-obra barata nas mãos dos professores e directores de escola, outros tornaram-se alvo de chacota para as outras crianças da mesma idade e a maioria foi vitima de violência física durante o tempo de escola, no entanto, cheio de esperança, o nosso João quer continuar a ser o melhor da turma mesmo no ano que vem e nos anos que se seguem.
Sem materiais escolares, sem professores qualificados e sob a discriminação racial constante, as crianças desta etnia unem esforços para avançar. O direito à Educação e o direito a ser criança estão ainda longe de ser uma realidade mas a luta pela sobrevivência transforma-se numa lição bem aprendida na floresta para praticar no meio da sociedade.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Natal em tempo de guerra


“E o Verbo fez-se carne… Poderá Ele habitar entre nós?"

Quisemos festejar o Natal 2009, com a comunidade cristã de toda a Paróquia. Para isso organizamos 3 Eucaristias no dia 24 e 2 no dia 25 para assim, chegarmos aos cristãos presentes nas nossas 17 capelas.
No dia 24 acompanhei o Padre José (mccj) a Zinga, a 20km do Centro de Mongoumba. Ao aproximar-me da aldeia pedi-lhe que parasse o carro para dar boleia a alguém que se dirigia para lá para nos indicar o caminho, pois, os quase 6.000 refugiados vindos do Congo inundavam a estrada de tal maneira que a entrada da aldeia estava irreconhecível e o risco de nos perdermos era enorme.
No dia 25 acompanhei o Padre Jesus (mccj) a IkumbaI, uma pequena aldeia a 15km do centro de Mongoumba. Chegando lá, deparamo-nos com o mesmo cenário: quase 3.000 refugiados ocupavam desde a entrada até ao fundo da aldeia.
Este mar de gente em aldeias de 250 a 300 habitantes torna a paisagem irreconhecível.
Não é a primeira vez que vivemos, no Natal, esta situação. Em 2000, esta mesma gente fugia da guerra, hoje, fogem de uma guerra que crêem existir. Na verdade, esta gente foge porque ouviu dizer que os rebeldes viriam atacar e que há um jovem feiticeiro que, só com o pensamento, é capaz de matar quem se cruza no seu caminho.
No final de contas, esta gente foge porque tem medo e os governos aproveitam este medo para fomentar esta movimentação de pessoas. Por aqui, a campanha eleitoral aproximava-se e, claro, com todos os organismos internacionais presentes no país em plena acção em favor desta gente, politicamente, dá uma boa campanha.
Mas, voltemos à missa de Natal, tendo mais de 80% dos participantes congoleses, o Pe. Jesus ainda arriscou uma saudação em lingala. Mas, o momento mais forte foi quando, com ajuda de um tradutor, lhes explicou que Jesus, o Filho de Deus, teve também que fugir para um país estrangeiro, que a fuga para o Egipto fez de Jesus o primeiro refugiado e que, por isso, naquele Natal, também ELE estava com a sua tenda no meio deles partilhando o seu sofrimento.
Para a maioria este é o segundo Natal das suas vidas passado em terra estrangeira, para os mais novos, esta é uma experiência que não será esquecida, para outros, esta terra será o lugar de nascimento e, para alguns, o lugar da morte.
Natal é tempo de paz e de alegria. Esta gente, com a ajuda dos Cristão de Mongoumba, tenta vivê-lo da melhor maneira possível. Em cada tenda, Cristo se faz presente partilhando a falta de água, de luz, de comida, de saúde e as dificuldades de comunicação, mas, sobretudo, em cada tenda, ELE renasce e se faz presente no coração de cada um.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Justiça e perdão


“Cristo Vivo na Missão para que todos possam ter Vida"

O Pedro tem 5 anos, é mudo e a sua mãe é viúva já há alguns anos. Um dia, o Pedro caiu no fogo e ficou com metade do corpo queimado. Assim, conhecemos nós o Pedro.
Quando foi visto no hospital, a situação foi considerada “demasiado grave” e, por isso, foi-lhe negada a possibilidade de ficar internado. Guardamos, pois, o Pedro, com a sua mãe e os seus dois irmãozinhos, no nosso centro para deficientes durante um ano.
Durante este tempo, o seu irmão mais novo, João, ficou doente. A mãe tinha partido para a floresta em busca de comida e as crianças estavam sozinhas. Assim, enviamos o pequeno João, com 40º de febre, com o nosso enfermeiro ao hospital.
Como o nosso enfermeiro, após a consulta, se cansou de esperar pelo pessoal do hospital para pôr o soro na criança, foi-se embora.
O nosso Joãozinho, com apenas três anos, passou, assim, um dia inteiro no hospital a fim de receber o tratamento adequado. Ali, sozinho sobre a cama do hospital, esperou que lhe pusessem o soro… finalmente, cansado de esperar, saiu com os medicamentos na mão.
Claro que isto implicou uma acção radical com o hospital. Graças a Deus o Joãozinho não morreu mas acabou por receber o soro, no dia seguinte, pelas mãos do nosso enfermeiro socorrista (contra a autorização do hospital…).
Levamos o caso às autoridades locais (já que a justiça por cá é lenta demais e injusta para brancos e pigmeus…). Após a reunião, o Presidente da Câmara pede ao chefe do hospital que faça um pedido de desculpas formal. Este, fê-lo, pedindo-me “perdão pelo que aconteceu com João”. Eu, que não estava lá para ouvir histórias, respondi que o pedido de perdão seria transmitido à família do pequenino e que, com certeza, seria aceite. Assim, pela primeira vez, um Bantú (não-pigmeu) viu-se obrigado a pedir oficialmente perdão a um pigmeu.
No final, o Presidente de Câmara pediu-me que termina-se a reunião com uma oração (faz parte da tradição começar e terminar sempre com uma oração). Como nem todos eram católicos e como me parecia ser o mais adequado, rezei o pai-nosso. No fim, após um breve silêncio, o Presidente da Câmara (mulçumano) exclamou: “esta oração entrou-me nas veias como um soro quando estamos doentes”.
É assim a nossa vida quotidiana. Há que vivê-la com o coração sem cortar relações mas procurando, a cada instante, uma ponte que nos faça seguir juntos rumo ao desenvolvimento, justos rumo aos verdadeiros valores da vida humana.
Quanto ao nosso Pedrocas, quando finalmente as queimaduras cicatrizaram, verificamos que a cabeça estava ligeiramente colada ao ombro e que o baço direito também não estava completamente livre. Assim, aproveitamos a vinda de um cirurgião francês que veio para operar crianças deficientes aqui ao nosso centro, e operamos o nosso Pierre.
Hoje, faz mais de um ano que ele se encontra, com a família, no acampamento e, embora não fale, quando ouve a nossa voz sempre sorri. Quanto ao Joãozinho, está muito maior e não resiste a se aproximar quando paramos o carro no caminho da sua casa.
Que Deus continue, pois, a fazer-se presente no meio de nós e a ajudar-nos a ser instrumentos de Vida para que todos possam tê-la em abundância.

terça-feira, 9 de outubro de 2012


“As razões da nossa Esperança "

Naquela manhã, um jovem rapaz veio à Missão pedir uma ajuda para a sua mulher que, tendo dado à luz quase há uma semana, continuava sem leite para o bebé. A Maria Augusta deu-lhe um biberão com leite para o bebé e um dos seus chazinhos “milagrosos” para fazer vir o leite à jovem mãe.
No dia seguinte, o jovem devolveu o biberão pois a esposa começava já a ter leite. Pediu-nos trabalho para conseguir pagar os medicamentos e a estadia no hospital. Nós aceitamos e sempre íamos perguntando pelo bebé e pela mãe até que, dias mais tarde, a avó da criança disse-nos que a sua filha continuava a ter pouco leite e que o bebé chorava muito. Aí descobrimos que o bebé estava tão mal que andavam-lhe a dar injecções e todo o tipo de antibióticos.
Fomos pois ao hospital e encontramos o pequeno André com desidratado, malnutrido e com uma micose que lhe ocupava toda a boca. Nos últimos dias ele tinha perdido um terço do seu peso! Que fazer? Felizmente, tínhamos o medicamento adequado para este tipo de micoses (um medicamento caro que não se vende aqui no mato). Começamos a dar o medicamento à criança e, como esta já não conseguia comer, começamos a dar o leite aos bocadinhos com a ajuda de uma seringa.

Era Domingo e nem dava para descansar. Em todo o dia o nosso Andrézinho tomou 70ml de leite (em vez dos 630ml que deveria)! Sem desistir, demos um pouco de leite dentro de um termos para a noite.
No dia seguinte, a Augusta partiu para as escolas, eu tentei recomeçar, com a seringa a dar-lhe o leite, mas o bebé só vomitava. Os olhos perdidos, não conseguia engolir nem uma gota. A avó que o tinha ao colo evitava que as lágrimas corressem e eu tentava buscar palavras de ânimo mesmo que cada respiro do pequeno me parecesse que seria o último.
Passou nesse momento pela Missão o animador missionário que vendo-me disse:
- Temos de te fazer uma foto a dar o leite com a seringa a esse bebé.
Eu pedi-lhe para não brincar pois o bebé estava muito mal e, portanto, não era hora de fazer fotografias. Com muita calma ele continuou:
- É preciso fazer uma foto para que servia de testemunho. O que estás a fazer não é para seres aplaudida mas para salvar uma vida e isso deve ser testemunho e exemplo para todos!
Sempre com o bebé a vomitar sem forças para continuar agradecer a Deus a riqueza que acabava de escutar deste animador missionário da nossa paróquia, chamei o nosso enfermeiro para que fosse com a avó e o bebé ao enfermeiro responsável do hospital. Eles foram, na receita vinham mil injecções para parar o vómito e nada para resover o verdadeiro problema. Pedi ao enfermeiro que voltasse ao hospital e que convencesse lá o pessoal a meter a criança a soro para tentar hidratá-la.
Graças a Deus, eles concordaram! No dia seguinte o André já tomava um pouco de leite. Voltamos a dar o chazinho da Maria Augusta à mãe que, pouco a pouco, começou a conseguir amamentar.
Algumas semanas depois da partida desta família, encontramos, por acaso, o jovem papá e perguntámos-lhe pelo André.
- Está grande! – Respondeu ele.
Lá nos despedimos e a Augusta só dizia:
- Esta vivo graças a nós.
- Graças a Deus, queres tu dizer. – Respondi eu.
- Sim, – continuou ela – mas nós demos uma boa mãozinha para o salvar!
É assim o nosso dia a dia: uma luta constante pela vida. Sempre na certeza que é Deus quem salva, mas que nós podemos dar sempre uma mãozinha!
Quanto aos finais menos felizes destas lutas, não nos fazem perder a fé nem a esperança, ao contrário, são força para continuar a lutar para que outros possam ter Vida e tê-la em abundância.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Nas teias da submissão


Quem disse que a escravatura terminou?
Em plena floresta africana, nem sempre é fácil visitar os acampamentos mais longínquos, no entanto, as vezes que visitei alguns destes acampamentos constatei que, a presença de gente da aldeia, não parava de aumentar. Que quer isto dizer?
Perguntando aos pigmeus, estes baixam os olhos e, sem me olharem, dizem baixinho: “Ala ga ti sala yaka ti ala” = “eles vieram para trabalharem os seus campos.”
Tudo estaria bem se assim fosse, mas, a verdade é que, sempre que me apercebo que essa gente lhes pede dinheiro, interrogando-os, os pigmeus ficam em silêncio, sem conseguirem me dar uma explicação.
Falando com o nosso responsável pela CARITAS Paroquial, a resposta foi simples: “Susana, essa situação de escravatura existia em todos os acampamentos. Ora, com a presença constante dos animadores da CARITAS e dos LMC, essa situação foi desaparecendo mas, como agora, devido à situação económica da CARITAS, eu estou sozinho como animador e como a comunidade de LMC está reduzida ao mínimo, como fazer para chegar e seguir de perto estes acampamentos mais longínquos?!”
Claro que a resposta mais rápida seria: “vamos denunciar esta situação às autoridades!”, mas, por um lado, aqui, os brancos são vistos como ricos de quem se deve fazer tudo para tirar dinheiro, por outro lado, os pigmeus não são considerados como pessoas (sobretudo, como pessoas com direitos!).
Então que fazer? Esperar que a situação mude em relação aos animadores da CARITAS ou em relação ao número de LMC aqui presente?
A resposta não é fácil e implica uma luta constante todos os dias e em cada dia. Há que ter forças para tentar fazer um seguimento de perto aos acampamentos mais distantes e tentar, pouco a pouco e com a ajuda de Deus, mudar a mentalidade tanto de quem escraviza como de quem se acha sem forças nem direito para gritar os seus direitos!
O medo é a raiz de toda a escravatura e, aqui, os pigmeus vivem numa corrente de medo constante. Neles, persiste a ideia de que não são nada e que, por isso mesmo, precisam dos seus senhores para serem protegidos.
Quanto aos habitantes da aldeia… bom, aqui em Centro-áfrica há uma expressão popular que diz: “cada centro-africano com o seu pigmeu!” Ora, se já é difícil de escapar das “mãos dos seus senhores” quando este vivem na aldeia, quando estes mudam as suas casas para o centro dos acampamentos pigmeus, a situação torna-se insustentável.
Pois é, a mentalidade e a maneira de viver deste povo fazem com que a luta pela justiça e pela igualdade sejam uma constante no nosso dia-a-dia aqui, deste lado do mundo.
Parece impossível alterar a situação… mesmo os grandes cristãos têm os seus pigmeus…! Que fazer? Desistir?! Nunca! O Deus da Esperança sempre nos acompanha e, em cada dia, nos vai mostrando que não estamos sós nesta luta. Por isso, em cada manhã, o despertar para mais um dia, vem com o cansaço humano imbuído por um espírito de Esperança e Alegria.
Afinal, quem trabalha para Deus, nunca trabalha numa causa perdida!
Por isso, hoje vos escrevo, porque, para mim, para combater uma corrente de injustiça e escravatura, há que formar uma corrente de Esperança e oração. Conto convosco neste projecto e “que Deus, de quem vem a Esperança, vos encha de Alegria e Paz na fé, para que essa Esperança seja cada vez maior, pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15, 13).


Razões e Motivações

Dar voz aos últimos

Parecia que íamos ter uma tarde de sábado como outra qualquer. O calor apertava nas horas a seguir ao almoço e a Rosanna e eu tínhamos ficado por casa a preparar algumas coisas para a eucaristia do dia seguinte e a fazer as contas da despesa do posto de saúde naquela semana
   A um certo momento, chegou uma mamã pigmeia que trabalha connosco. Trazia a filha, de 2 anos, que estava doente. E, enquanto eu «aviava» a receita do hospital, convidámo-la a entrar em casa e a partilhar connosco um copo de água fresca, aproveitando também para pôr a conversa em dia, já que fazia tempo que ela não vinha trabalhar. Passados alguns minutos da partida desta visita, chegou o nosso presidente da câmara e, claro, entrou em casa e nós aproveitamos a companhia para mais um copo de água fresca.
Partilhar
 Quando este partiu, dei-me conta de que tinha vivido naquela tarde uma das coisas mais importantes na missão: partilhar a minha casa tanto com os mais desprezados como com os mais respeitados da sociedade.
Na verdade, esta pequena tarde de sábado fez-me recordar a criança apaixonada pela África que eu era… Pois é, desde cedo eu desejava estar o mais perto possível daqueles que nada têm e, sobretudo, de ser uma com eles, de modo que pudesse ser ponte entre os mais pobres de entre os pobres e as suas autoridades locais e, claro, entre estes e a Europa.
Recordo que, quando parti, com 24 anos, para a missão na República Centro-Africana não tinha nenhuma ideia do que me esperava. Sabia apenas que Deus me chamava e que o coração da África precisava de mim tanto como eu precisava dele.
Neste sentido, a formação com os Leigos Missionários Combonianos (LMC) foi muito importante e ajudou a confirmar a minha vocação como leiga e missionária dentro do carisma de Comboni, mas, se naquela altura eu amava a África e não concebia a ideia de «ser feliz» sem lutar activamente por um mundo mais feliz, mais justo e verdadeiro, hoje posso afirmar que a doação à África traz-me mais do que a felicidade, traz-me o sentido para a vida, a força para a esperança no manhã e, sobretudo, faz-me sentir o amor e a presença de Deus mais do que nunca, afinal, estando entre os mais pobres do mundo inteiro, estou entre os mais amados de Deus.
Quanto ao meu amor pela África… ninguém ama, verdadeiramente, aquilo que não conhece. Hoje, eu amo a missão não no abstracto mas no concreto das pessoas, das lutas, das dores e das alegrias do dia-a-dia.
Sempre como LMC, não me imagino na missão como consagrada, mas como jovem que, na sua liberdade, ousou sonhar e lutar por aquilo em que acredita para que o Reino de Deus aconteça, de facto, no meio de nós.
Esquecidos pelos homens
 Falo-vos, pois, da República Centro-Africana, este país tão esquecido pelos homens e tão amado por Deus. Aqui, estou numa comunidade LMC em plena floresta africana vivendo e trabalhando com os pigmeus e com os bantos (não pigmeus).
Tenho vindo a lutar com eles para que a crescente desflorestação acabe. Com efeito, se o abate das árvores não cessar, dentro em breve não existirão mais pigmeus na região e os bantos, que vivem nas aldeias, tornar-se-ão mão-de-obra barata de quem quiser explorar a região.
Actualmente, por causa desta situação, os pigmeus e os não pigmeus são obrigados a viver demasiado próximos e, claro, o choque cultural – para o qual ninguém estava preparado e que foi, naturalmente, imposto pelos interesses das empresas europeias de madeira – faz que os pigmeus vivam numa situação de escravatura e exclusão social total.
Para ajudar a fazer frente a esta exclusão social, a missão criou e gere seis escolas de integração para os pigmeus. Escolas, estas, que estão espalhadas pela floresta num raio de cerca de 60 km. Tentamos, assim, através de um método específico, que as crianças pigmeias frequentem os primeiros anos de ensino para depois serem mais bem integradas nas escolas públicas.
Para isso, nestas escolas, estudam também crianças bantas. Deste modo, procuramos começar um caminho onde todos, pigmeus e não pigmeus, possam viver juntos, em cooperação e harmonia.
No entanto, há que estar sempre atento, pois o trabalho nas escolas públicas não é fácil. Os professores são os primeiros a discriminar e escravizar as crianças pigmeias. Doloroso é pensar que o fazem, não porque são «más pessoas», mas porque a presença da Europa, que todos os dias explora e devasta este país, aqui se faz sentir de uma forma tão acentuada que corrói e destrói aqueles que eram os princípios e os valores desta cultura banta.
Chegam a existir dias em que ser branca me faz sentir mal, porque me faz sentir parte e cúmplice desta amarga realidade.

Fome e doença
 Outros problemas que daqui advêm têm que ver com a saúde. Como os pigmeus vivem da floresta, esta, ao ser destruída, abre um caminho de fome e de doença. Por um lado, de fome, porque as árvores, que são a base da alimentação, são abatidas. Por outro, de saúde, porque as doenças aumentam e as árvores e plantas medicinais, usadas nas curas tradicionais, começam a ser difíceis de encontrar. Neste sentido, e também para ajudar neste caminho de integração dos pigmeus no sistema de saúde público, a missão gere um posto de saúde. Este está especialmente direccionado para os pigmeus e para os mais pobres da aldeia.
Aqui, não fazemos as consultas, servimos apenas de ponte entre os doentes e o centro de saúde público, dando também o apoio necessário para a toma de medicamentos. Connosco trabalha um enfermeiro-socorrista centro-africano que nos ajuda a acompanhar os doentes para a correcta toma de medicamentos e a fazer a sensibilização sanitária nos acampamentos pigmeus.
Nesta área, posso dizer-vos, as lutas são mais que diárias: são de minuto a minuto! A todo o momento deparo com erros clínicos graves no centro de saúde público que resultam tanto da ignorância e negligência de quem lá trabalha, como da discriminação e da falta de consciência da importância e valor da vida.
Assim, há dias que este centro de saúde parece produzir mais a morte que a vida. Por isso, quando as mortes acontecem «sem terem de acontecer», isto leva-nos a lutas que terminam ora em tribunal ora no Ministério da Saúde.
Um destes exemplos foi o de uma bebé de quase um ano. Chamava-se Dimanche, porque nasceu num domingo, e a sua mãe morreu na hora do parto. A avó pegou nela e pediu-nos ajuda para salvá-la. Era uma linda menina e agarrou-se ao biberão como se já tivesse mais de um mês de vida! Estava esfomeada a pequenina.
Pois é, formamos a avó para as questões de higiene e para que esta aprendesse a fazer e a lavar o biberão e, para isso, ficaram ambas a viver perto da nossa casa durante quase um ano.
Como todas as crianças, também a Dimanche tinha as suas doençazinhas, mas tudo ia correndo bem. Um dia, mais uma vez, ela ficou doente. Era um domingo e, como todos os domingos… o «enfermeiro» que devia estar no centro de saúde não se encontrava lá… A pobre Dimanche ficou das 8 horas da manhã até às 5 horas da tarde sem nenhuma assistência médica… no dia seguinte, morreu!
Sim, o caso não é único a seguir o caminho judicial, no entanto, não estamos aqui para «quebrar» relações mas para, juntos, seguir em frente nesta luta por um mundo mais justo. Por isso, apesar destas dificuldades, a Missão, com o posto de saúde, continua a lutar por um trabalho de integração e colaboração com o centro de saúde público.
Dar voz
 Quem cá está não é senão vítima da corrupção mundial que ajuda este nosso governo centro-africano a preocupar-se mais com abastecer-se de armas do que com a Saúde e a Educação deste povo. Será, então, legítimo exigir competência desta gente que nunca foi livre para, no seu próprio país e cultura, receber a formação, tanto pessoal como profissional, a que teria direito?
Certamente que não, mas isso não nos desanima, ao contrário, faz-nos lutar em favor da vida e da verdadeira liberdade deste país que, teoricamente independente, continua a sofrer diariamente os abusos da colonização.
Estas e outras dificuldades não nos desalentam, antes nos dão esperança para acreditar no amanhã. Sim, o trabalho é muito, mas Deus faz-se presente a cada instante.
Nestas questões sociais, apercebo-me que, mais importante que ser voz dos que não têm voz, é conseguir dar voz aos que a não têm. Na verdade, o «Salvar a África com África», de que Comboni falava, passa por aí.
Claro que não é fácil, mas lutar hoje para que um pigmeu lute, ele mesmo, pelos seus direitos é o único caminho para que este encontre o seu espaço na sociedade e que, amanhã, o mundo possa de facto ser melhor para esta gente. Do mesmo modo, abrir caminhos para que este povo centro-africano lute contra a dominação e a corrupção é a verdadeira missão de quem ama este povo. Talvez, por isso, vos escrevo, hoje, para que uma porta se abra e o grito de quem aqui sobrevive e sofre possa ser ouvido no mundo inteiro e que, amanhã, sejam estes mesmos centro-africanos a romper as amarras da dependência e da morte a que estão sujeitos.
Evangelizar
 Outro aspecto importante aqui na missão tem que ver com a acção pastoral e de evangelização. Organizámos e assistimos seis grupos de jovens que se multiplicam pelas 17 capelas que a paróquia tem. Ou seja, há que dar uma mãozinha nas actividades destes 102 grupinhos. Não é tarefa fácil! No entanto, vou-me fazendo presente na medida do possível, na esperança de que, também nesta área, possam vir mais LMC dar uma ajuda, para que possamos estar mais com as pessoas e, com elas, ajudar a florir a flor da esperança, da fé e do amor.
Por vezes, com estas andanças, pergunto-me se estou a dar a devida atenção às pessoas com quem vivo e àquelas que vêm à missão e se a mensagem do Cristo que aqui me chamou está a passar… Muitas vezes acho que não e que estou demasiado absorvida com as «coisas que tenho para fazer». Contudo, recordo o Zepherin, a nossa sentinela, que, certo dia, estando nós a apanhar a roupa, me disse:
– Susana, ensina-me a rezar! Eu às vezes não consigo!
Eu, que andava, como sempre, com a preocupação de não estar a dar testemunho d’Aquele que aqui me enviou, respondi-lhe:
– Eu, se calhar, também não sei rezar. Rezar não se aprende. Rezar é estar, é falar com Deus. Não é nada de complicado, mesmo se há dias que não conseguimos sentir-nos em oração, o facto de lhe dizermos: «hoje, não consigo», já é estar a rezar.
O Zepherin foi então mais longe, e disse:
– Eu queria rezar como tu rezas!
Tal foi a minha surpresa, que quase deixei cair a roupa que tinha nos braços!
– Eu? – perguntei-lhe. – Como é que sabes como é que eu rezo? Eu rezo como toda a gente reza! Não faço nada de especial!
Ele respondeu-me:
– Susana, eu vejo como tu fazes as coisas! Há alturas em que a situação é complicada e tu, em vez de perderes a cabeça, dizes: «Logo se vê o que acontece. Deus providenciará», e a verdade é que normalmente as coisas ou se resolvem ou ficam, pelo menos, mais calmas.
A partir daí, só tentei dizer alguma coisa valorizando a oração que ele também fazia. Contudo, o sentir que, de facto, é a forma como vivemos a base da evangelização faz-me repensar a minha forma de agir e estar com os outros.
Pensar-se que a evangelização e a missão são «coisas para padres e freiras» é um erro e uma forma de fugir às nossas responsabilidades cristãs.

Ser com os outros
Aqui, na República Centro-Africana, precisamos de gente capaz de lutar, através do Evangelho, em favor deste povo que, conhecendo tão pouco a Cristo, busca conhecê-Lo através da coerência de vida daqueles que dizem que O conhecem, sejam estes padres, freiras ou leigos.
A missão, em todos os lugares do mundo, precisa de testemunhos de vida que sejam chave para a libertação dos povos. Hoje, na missão, o desafio não é «fazer alguma coisa para os outros», mas «ser alguma coisa com os outros».
A oração sem a acção é vã e distante dos valores do Evangelho.
Hoje, a missão desafia-nos a viver de acordo com os valores que defendemos e em favor de um mundo onde todos, sem excepção, sejam considerados, de verdade, filhos de Deus.