segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Tudo em família


A Família Comboniana
ao serviço da Promoção Humana

O encontro estava marcado para aquela Terça-feira às três da tarde. O Sol era abrasador mas as cadeiras metidas à sombra das casas era o suficiente para que a nossa espera se torna-se mais agradável.
Naquela tarde, a nossa comunidade LMC com a comunidade de combonianos aqui presente, partimos para um dos bairros da aldeia para tentar recomeçar a trabalhar com esta Comunidade Eclesial de Base (CEB) que estava parada já há mais de 5 anos.
Esta comunidade, “apadrinhada” por S. Kizito, tem mais de 150 cristãos. Aqui, tentamos, com eles, ler a realidade a partir da Palavra de Deus.
Nesta tarde, poucos foram os que apareceram ao encontro mas isso não impediu a boa disposição de todos que, ora com a Márcia ora com o P. Jesús, iam deliciando-se com as fotografias que íamos fazendo.
Às quatro da tarde, éramos apenas uns vinte a estar presentes. Que fazer? Esperamos mais uma meia hora e, como ninguém mais se aproximava, rezamos juntos pedindo ajuda para esta CEB e para a Paróquia.
Nesta Terça-feira, não podemos eleger os líderes desta comunidade mas conseguimos, com os poucos presentes, descobrir dificuldades e soluções para o seguimento deste projecto pastoral.
Nesta comunidade, vive a família de um dos padres locais. A mãe – Carlota – apesar da idade e de viver sozinha há vários anos (o filho padre é o único que continua vivo), continua a ser um exemplo de força e de fé sobretudo no grupo de Legião de Maria aqui da Paróquia. É também ela que ajuda o seu irmão – Francisco – mais velho que ela e que, desde tenra idade ficou cego e paralítico após uma vacina mal dada…
Este velho, na sua cadeira de rodas e com todas as suas limitações, é catequista e um dos grandes animadores da liturgia. Só ele para saber de cor todas as leituras da missa e, claro, toda a história da Paróquia.
Assim, com estes “arquivos” vivos da história paroquial, esta tarde quente de Terça-feira tornou-se mais do que uma simples espera (por quem nunca chegou), ao contrário, tornou-se num convívio fraterno onde as lembranças do passado se misturavam com a vida actual.
O desafio está lançado e esta comunidade, com o Senhor Francisco e a Senhora Carlota, tem a oportunidade de recomeçar em favor de um desenvolvimento que caminhe de acordo com as páginas do Evangelho – um desenvolvimento que seja para todos independentemente da idade, raça ou condição física.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A porta da Fé? A Esperança e o Amor!


A fé: A força que nos move!


É um bocado difícil de prever o que acontecia às tantas crianças pigmeias de Kpetene se não houvesse uma escola no centro do acampamento. Na verdade, criamos esta escola a 5km da aldeia, em plena floresta, pois, todos os anos, estas crianças que aqui vivem, ao tentarem chegar à escola da aldeia eram desviadas para trabalhar os campos dos não-pigmeus. Estas crianças, de 5 a 7 anos, eram demasiado pequenas para se escaparem às mãos dos adultos e prosseguirem caminho. Assim, há três anos que esta escola oferece os dois primeiros anos de escolaridade.
Um dos problemas com que nos deparávamos era que, dada a humidade da floresta, o quadro da escola deteriorava-se muito depressa… que fazer? A escola nem sequer tinha muros para uma maior protecção!
Animamos os pais a construírem um muro que protegesse o quadro…
Uma manhã, como tantas outras manhãs, a Augusta partiu a Kpetene para visitar a escola e, qual não foi o seu espanto: um muro tinha sido feito quase até ao teto!
Que alegria! Sem pensar duas vezes, a Augusta foi partilhar a sua alegria e entusiasmo com os pais e alunos desta escola e claro no seu regresso, com ela vieram uns dez alunos que, com alegria, preparavam-se para regressar com o novo quadro da escola que, desde há alguns meses, os esperava na Missão.
A Augusta ia-lhes dando alguns conselhos pelo caminho e encorajando-os a continuar a construir a escola com os meios que eles tinham na floresta.
Quando chegaram, a Augusta bebeu e deu a beber aos garotos um pouco de água fresca e deu-lhes o quadro com todas as recomendações que se devem fazer a crianças que levam um quadro escolar para o meio da floresta densa!
Actualmente continuamos a animá-los a continuar o muro da escola e um novo grande quadro espera na Missão para ser levado para Kpetene logo que as condições para a sua instalação estejam reunidas. Agora, incentivamos pais e alunos a arranjarem também novos bancos e mesas (de acordo às possibilidades existentes na floresta).
Esta escola é, para nós e para os que aqui estudam, uma fonte de esperança que não nos deixa baixar os braços, ao contrário, mesmo se foram precisos dois anos para levantar um muro, acreditamos que o tempo será também, com a ajuda de Deus, o necessário para levantar o orgulho deste povo face à descriminação dos demais.
Em cada dia, constatamos que viver a Missão não é uma questão de coragem mas uma questão de fé – a fé que porta e mantém acesa a chama da esperança!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Gargalhadas na floresta


Ao serviço do Evangelho

Naquela manhã de Quinta-feira, posemo-nos ao caminho rumo a Bassin. Um acampamento de pigmeus a 3km de casa. Não se tratava de uma visita “profissional” ou do acompanhamento das actividades que levamos a cabo nesta zona. Ao contrário, era uma visita aos amigos!
Como íamos a pé, ao longo do caminho, as crianças vinham a correr saudar-nos e os adultos sempre nos faziam parar a marcha para pôr a conversa em dia. De tempos a tempos, lá surgia alguma criança que, não estando habituada aos brancos, fugia de nós a chorar como se estivesse a ver um fantasma. Este pequeno “trauma” para a criança, tornava-se origem de gargalhadas bem animadas em todo o bairro.

Quando chegamos ao nosso destino, o acampamento encontrava-se praticamente vazio. Todos tinham partido ao interior da floresta para apanhar as larvas das árvores. Na verdade, esta é a época de as apanhar e de fazer um bom comércio ou se deliciar com o petisco. No entanto, encontramos uma família que ainda estava nos últimos preparativos para a partida.
Lá passamos um bom bocado na conversa e entre risos e algumas fotos lá fomos percebendo as dificuldades com que os pigmeus se batem sempre que abandonam o acampamento nesta altura: têm de transportar tudo quanto possuem (ainda que não tenham praticamente nada) encontrar meios para conseguirem levar para a floresta um pouco de sal e algum saco para trazerem as larvas.
É preocupante esta época, na verdade, quando regressam da floresta, vêm bastantes doentes e, esta altura que deveria ser de grande abundância e alegria torna-se num momento de dor e de perda.
Aproveitamos, pois, esta ocasião, para sensibilizar para a saúde, mas também para aconselhar para serem prudentes no momento de venderem as larvas (normalmente, os não-pigmeus tentam roubá-los ou pagar muito pouco por este petisco).
Assim, passando pela escola e fazendo ainda mais algumas fotos, regressamos a casa.
No regresso, as pessoas que nos tinham visto à ida, praticamente esperavam a nossa volta.
Sempre por meio de saudações, quase a chegar a casa, uma das responsáveis pela iniciação à catequese na nossa paróquia, parou-nos e, sempre bem-disposta, ia-nos pedindo ajuda e dando ideias para o trabalho pastoral que realiza. Aproveitou também para partilhar-nos os problemas familiares que estava a viver, (a filha grávida sem marido, o seu marido que tinha arranjado outra mulher, etc), pedia-nos para rezar.
A nossa manhã chegava ao fim mas a alegria e a esperança que vivemos e partilhamos ao longo deste passeio matinal, fez-nos reflectir sobre a nossa acção nesta terra de missão, sobre o que fazemos e o que somos. Na verdade, este passeio a pé, tornou-se ponto de encontro e de partilha de alegrias e preocupações. Nesta caminhada não levamos nada (nem alforge nem cajado), mas Deus proporcionou-nos momentos em que podemos dar aquilo que somos: a nossa Esperança e os nossos limites. Não podemos fazer milagres? Talvez! Mas estes foram, sem dúvida, momentos privilegiados em que podemos anunciar a Boa Nova aos pobres e aos prisioneiros a liberdade!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O segredo da mulher – ser mãe!


A mulher – o alicerce do desenvolvimento africano


Chama-se Rosaline, tem trinta e poucos anos, cinco filhas e tem SIDA. Em M’baïki detectaram-lhe a doença e sugeriram-lhe que deixasse o bebé de um mês e partisse para morrer em casa, pois, não deveria sobreviver mais de uma semana.
Em vez de seguir o conselho, esta mulher caminhou com a sua bebé nos braços durante 80km e chegou-nos à Missão. Encaminhámo-la ao hospital e demos leite para a criança.
Algumas semanas depois esta mulher estava, aparentemente, bem. Recuperou as forças e recomeçou a vender os produtos do seu campo no mercado para ter algum dinheiro para sustentar as cinco filhas. O marido, esse, partiu para o Congo e nunca mais regressou.
Nesta mulher nunca se descobre um olhar triste, ao contrário, sempre sorridente e cheia de garra, faz face aos problemas que vão surgindo.
Hoje, um ano depois, esta mulher continua, com a graça de Deus, a trabalhar e a cuidar das suas filhas. Sempre sem desistir e sem desesperar com as novas doenças que vão surgindo.
As meninas têm no olhar uma sombra de tristeza mas que não as impede de avançar e se, sorrindo, nos pedir ajuda para poderem ir à escola.
Esta é uma das muitas histórias das mulheres que aqui encontramos.
Sempre cheias de força e de vida, são inúmeros os exemplos de vida como o da nossa cozinheira que, apesar de ser casada é ela que, depois do trabalho, vai ao campo e, chegando a casa, mete os produtos do campo à venda, prepara o jantar para os seis filhos e, caso o marido se meta em alguma confusão, é ela que o vai tirar da cadeia.
Neste país, a mulher, independentemente da sua etnia, e sem ter consciência disso, é a base do desenvolvimento social e o “motor” dentro das diferentes religiões.
Aqui, onde as mulheres são consideradas como inferiores em relação aos homens, é com alegria que a nossa Missão tenha sido sempre maioritariamente formada por mulheres. Nos últimos 11 anos, 8 mulheres LMC passaram por esta casa partilhando a vida destas mulheres que, acreditando no desenvolvimento, se negam a baixar os braços diante das dificuldades.
Se é verdade que por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher, neste continente, precisamos de grandes homens que sejam dignos de tão grandes mulheres!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nas correntes da morte


A Morte vista a partir da Missão

A Maria Natal é a nossa cozinheira. Quando soubemos que estava grávida, alegramo-nos com ela e, apesar do muito trabalho, passamos os nove meses em expectativa e alegria. Eu dizia-lhe sempre, “vamos lá a ver se é um rapaz para ver se assim ainda posso entrar na tua família!” De brincadeira em brincadeira, o tempo passou e ela deu à luz este rapagão de mais de 4 quilos!

Chamou-lhe Abdias (como o profeta) e sempre dizendo que este seria o meu marido ia fazendo a inveja de todas as mamãs que vêm com os seus pequeninos à Missão. Assim, pouco a pouco, Abdias tornou-se o primeiro dos meus “maridos”.
Claro que, partilhando o dia a dia com este bebé que não tinha lá grande saúde, este chegava a chorar e a fugir dos braços da mãe para se lançar nos meus braços.
Um dia, a febre atacou e pouco a pouco foi-se formando uma grande micose na boca. Sem medicamentos adequados em Mongoumba, sugerimos à mãe que o evacuássemos. Ele encontrava-se tão debilitado que lhe sugerimos ir, não de carro (com as estradas que aqui temos) até Bangui, mas ir de canoa até Libenge (no Congo) onde se encontra um hospital gerido pelas irmãs de S. José.
Ela não apreciou a ideia, pois, segundo a tradição, o rio é cheio de feitiços e poderia, assim, ser fatal para o bebé. Também o responsável pelo hospital quase a proibiu de tirar o bebé dali dizendo que ele possuía todos os meios para o salvar.
Os dias passaram e a micose espalhou-se pelo corpo todo. O nosso Abdias partiu para Deus antes de completar dois anos de vida.
No dia seguinte, fui visitar a mãe que, abraçando-me gritava por meio de soluços: “eis que o casamento não será feito”, esta era a sua forma de dizer que todos os sonhos e tudo quanto vivemos com este menino estavam terminados.
Passado mais alguns dias, agora com um pouco mais de serenidade da sua parte, respondi a este grito com uma mensagem de esperança.
Na verdade, aqui na Missão, a morte é uma constante e torna-se sempre uma força para lutar em favor da justiça para que muitos outros “possam ter Vida e tê-la em abundância”.
Hoje, a Maria Natal tem mais um bebé, chama-se Daniel (em honra de Daniel Comboni) e, continua a brincar com um novo casamento. Nada mudou? Não! No seu coração Abdias continua vivo e, ao contrário do que acontecia, quando questionada ao nível das autoridades sobre a competência do pessoal do hospital, esta mulher não tem medo de responder de acordo à realidade. Não o faz por vingança, antes, como ela mesma diz: “se eles (os do hospital) souberem o que eu disse e se quiserem vingar, que se vinguem. Eu morro mas a verdade é a verdade”.
Sejamos, pois, nós também, no nosso dia a dia, capazes de, sem medo de represálias, gritar a verdade em favor da Vida. Conto convosco nesta luta!

sábado, 20 de outubro de 2012

Uma viagem… uma aventura


A 1.000KM DE CASA…

 Os últimos meses têm sido de grande emoção: a chegada da Márcia, a partida da Márcia para aprender o sango, as primeiras reuniões paroquiais com os responsáveis das capelas e a nova comunidade de combonianos que se instalou a Mongoumba, os quase 20.000 “refugiados” vindos do Congo e as dezenas de ONG’s que aqui se instalaram…
     Longe de nos deixar-mos levar pelo cansaço e aproveitando os 12 anos de presença dos LMC em Mongoumba, decidimos levar a cabo a primeira Assembleia Geral de LMC na RCA.
     Esta Assembleia pretendeu recuperar a história dos LMC em Mongoumba e fazer uma avaliação do caminho que percorremos: o passado, o presente, o futuro imediato e as perspectivas de futuro. Aproveitamos também este tempo para debater algumas inquietações que existem a nível do Instituto Comboniano ; inquietações que ressurgem no último Capitulo dos MCCJ e que nos parecem pertinentes (a carta comunitária ; a animação missionária ; a promoção do lacado africano…)
Como a Márcia faz o estudo de sango em Kembe (numa comunidade de irmãs combonianas, a 850km de Mongoumba), aproveitamos para chegar até Bangassou (a 1.000km de casa) para esta Assembleia.
    Desta Assembleia surgem vários documentos que serão revistos e oficializados que depois colocaremos à vossa disposição, mas, pelo momento, cá ficam as aventuras da viagem e dos bons momentos livres que passamos a leste deste país.
    A aventura começou antes de deixar Mongoumba. Na verdade, no dia em que tínhamos previsto partir, o bac estava avariado e não podemos atravessar o rio… No dia seguinte, depois de várias tentativas para o fazer, o chefe do bac comunica-nos que não nos poderá passar, porque ainda continuam os trabalhos para arranjar o bac.
    A Augusta já com vontade de regressar, conseguiu ver os frutos da sua paciência. Uma autoridade chegou e, claro, como nestes casos dá-se sempre um jeito, lá conseguimos, atravessar o rio.
     Chegamos a Bangui pouco antes do meio-dia. Estávamos cansadas e ainda faltavam 800km a percorrer. Entramos na casa provincial, comemos e seguimos viagem (não sem antes fazer umas comprinhas para a Márcia).
     Quatro horas depois, (sempre por uma estrada desconhecida), chegamos a Grimari. Uma paróquia onde estão os combonianos. Eram já quase cinco da tarde e o sol já estava a esconder-se. Perguntamos se haveria espaço para nós e, com um sorriso aberto disseram-nos: “para vocês haverá sempre lugar!”. Graças a Deus! Nós já estávamos bem cansadinhas dos 500km que tínhamos percorrido! Com a comunidade (que se encontrava com o provincial), rezamos, comemos e, depois de passarmos alguns momentos juntos, sem demoras, fomos deitar-nos.
      Eu fiquei no quarto com a Maria Augusta. Atirámo-nos para a cama e já com a luz apagada a Augusta levantou-se para ir buscar água. Mal abriu a porta do quarto, ouvi o Padre que lhe dizia: “Augusta, olha para o carro, vocês têm um furo.” Eu, sem me mexer da cama, só pensei: “graças a Deus que foi aqui e não no meio da estrada!”
      Pronto, no dia seguinte, como desde o início da viagem, lá atrasamos a partida. O pneu foi arranjado e, quase duas horas depois do previsto, lá continuamos o caminho.
      A estrada estava bastante perigosa, a areia era muita e era suficiente um pouco mais de velocidade para o carro deslizar, tinha também muitas curvas e muitas lombas, subidas e descidas intermináveis que faziam ora “morrer” o carro ora aumentar a velocidade… a visibilidade era nula e a seguir a uma lomba nunca sabíamos o que íamos encontrar… Para o trajecto, tentamos fazer sempre uma média de 200km cada uma de maneira a, sem pararmos, irmos descansando da condução. No entanto, a Augusta apanhou sempre os piores lugares da estrada. Para mim ficou só uma aventura com um galo que tentou atacar o carro e acabou por se esborrachar contra o pára-brisas.
       Entre as 15 barreiras que passamos, conto-vos o que se passou a 680km de casa. A Augusta conduzia, um calor abrasador fazia-nos estar mais cansadas do que era previsto. A sede era muita e a água que tínhamos estava tão quente que se juntasse-mos umas ervas dava para fazer chá! Eis que nos aproximamos da barreira. Só mesmo a 2 metros dela é que tínhamos sombra. A Augusta, claro, parou na sombra, mas, o militar que controla a barreira, achou que nos aproximamos demasiado. Começou a gritar e a mandar-nos recuar. A Augusta assim fez. Ele aproximou-se de nós sempre a gritar e nós pedimos desculpa tentando explicar que só queríamos aproximar-nos da sombra. Nada a fazer. Ele gritava cada vez mais. Não aceitava nem explicações nem desculpas. Depois, num tom de poucos amigos, pediu a carta de condução à Augusta (quase sempre quando pedem os documentos é multa certa). A Augusta deu-lhe. Ele olhou para a carta e perguntou: “Maria Augusta, é você?” A Augusta disse que sim. Não sabemos porquê mas, ele abriu um sorriso enorme, desejou-nos boa viagem e deixou-nos passar…
      Como já vem sendo hábito, sempre rezamos o terço e nos confiamos nas mãos de Maria para que a viagem se passe pelo melhor.
      Seis horas depois de deixar Grimari, chegamos a Kembe. As irmãs acolheram-nos de braços abertos e, depois do almoço e já com a Márcia connosco, continuamos viagem.

O céu começou a escurecer… o vento assobiava e fazia as árvores agitarem-se… em plenas três horas da tarde tivemos de acender as luzes (mais uma vez a Augusta a conduzir). Caíram as primeiras gotas… e logo outras se seguiram com violência. Começamos a rezar o terço mas, logo a seguir ao primeiro mistério, a violência da chuva e do vento era tal que não podíamos continuar. Os buracos da estrada enchiam-se de água e subiam até ao pára-brisas como um tsunami que nos engolia tirando-nos a visibilidade e fazendo o carro deslizar.
Paramos num lugar longe das árvores e continuamos a rezar o terço. De um lado, as casas pareciam ilhas no meio de tanta água que se ia estagnando entre elas, do outro lado da rua, uma Igreja… nos meus pensamentos, o salmo 144 «O que é o homem para que te lembres dele? O filho de um homem para que contes com ele? O homem não é senão um sopro…». O barulho da tempestade era tal que quase não nos conseguíamos ouvir. À porta de casa mais próxima, olhos curiosos tentavam perceber se quem vinha no carro iria passar ali a noite…
Estávamos já no quarto mistério quando a chuva acalmou um pouco e o céu ficou um pouco mais claro. Arriscamos continuar. A chuva parou. Parecia que não haveria mais atrasos, afinal só faltavam 35km. Finalmente chegamos a Bangassou, onde o bispo tinha ficado de nos receber, o bispo tinha partido e parecia que alguns imprevistos nos deixavam quase sem sítio para dormir. Claro que isso não aconteceu. Graças às irmãs de Gran Rio e aos Combonianos aí presentes, lá jantamos e dormimos descansadas. No dia seguinte, instalamo-nos no espaço onde o bispo tinha reservado para nos acolher.
      Devo dizer que, a preocupação do bispo (que tentou nos acompanhar sempre através do telemóvel), o acolhimento das irmãs de Gran Rio e a disponibilidade dos padres combonianos, encheram-nos de alegria e fizeram-nos sentir de verdade orgulhosas da Família Cristã a que pertencemos.
 No último dia da Assembleia, visto que já estávamos mais livres, fomos, com os padres combonianos, visitar os vários projectos da Diocese: a escola técnica (costura, agricultura, apicultura e carpintaria), o “Bom Samaritano” – que é um centro para leprosos, para doentes de Sida e para idosos acusados de bruxaria. Com a irmã Marcela – Gran Rio –, fomos à prisão e participamos no encontro semanal que ela faz com os presos. Foi bom sentir o pulsar da pastoral aqui deste lado. Na verdade, tanto Gran Rio como Combonianos, na sua humildade e pobreza, mostraram a riqueza de coração que eles oferecem cada dia a este povo.
     Caso pensem que as aventuras do carro terminaram, enganem-se! Neste último dia, para visitar-mos todos estes projectos, pegamos no carro, ou melhor dizendo, tentamos pegar no carro… como ele não deu sinais de vida, chamamos o mecânico para carregar a bateria. Saímos e, uma hora depois, estávamos a empurrar o carro!
A ponto de regressar a situação apresenta-se bastante confortável: a bateria do carro está completamente descarregada, o gasóleo acabou na bomba de gasolina desta terra e nós só temos mais 1000km a fazer para chegar a casa. Mas, com fé, esperança, alegria e espírito desportivo, o regresso a casa, será certamente uma história para outro dia.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vocação – a alegria do ser chamado!


“O olhar de um leigo diante do sacerdote missionário"

Naquela manhã de Domingo, o Pe. Luigi Matiazzo, pároco em Mongoumba, na República Centro-africana, saiu de casa bem cedo rumo a uma das capelas da paróquia. Esperavam-no uns 30km de estrada seguidos de uma hora em canoa para chegar à pequena comunidade cristã de Sedale.
Como já é costume, porque a estrada é difícil e o tempo de canoa é considerável, aproveitou-se para enviar com ele o animador da CARITAS que devia fazer uma reunião com os chefes da aldeia por causa do Posto de Saúde que continua a ter problemas graves de funcionamento.
Assim, partiram eles antes das seis da manhã. A missa e o encontro com os cristãos passaram-se bem, assim como a reunião para regularizar o funcionamento do Posto de Saúde, mas… à hora de regressar, o céu ameaçava pregar uma partida a este missionário. A tempestade começou estavam eles no meio do rio. Os relâmpagos iluminavam o rio enquanto a chuva e o vento iam tornando esta viagem em canoa mais longa e difícil que o costume.
Chegados a Mongo, a pequena aldeia onde tinha ficado o carro, era já de noite. Impossível de se meter ao caminho. A ponte, a poucos metros de distância tinha caído e o barco que serve para atravessar o rio para chegar a Mongoumba, não funciona durante a noite. Que fazer? O animador da CARITAS encontrou facilmente abrigo em casa de familiares e o nosso Pe. Luigi… contentou-se com o banco do carro após um dia quase sem comer.
Neste ano que o Papa chamou “Ano Sacerdotal”, sobretudo em terras de Missão, o sacerdote tem um valor muito especial, por isso mesmo, a sua responsabilidade face aos demais é enorme.
Os sacerdotes missionários, aqui no coração da África, vão-nos recordando, a nós leigos, da verdadeira razão da nossa acção e vão nos dando, através das suas vidas, coragem para avançar neste Plano de Deus a que fomos chamados.
Damos, pois, graças a Deus por continuar a chamar gente ao sacerdócio e, sobretudo, ao sacerdócio missionário. Que o Espírito Santo abençoe a Missão com mais sacerdotes e que, com esta vocação, eles possam continuar, em cada dia, com fé e alegria, a dar o seu SIM em favor dos mais pobres do mundo: em favor daqueles que ainda não conhecem a Cristo.
Neste tempo, dito de “crise de vocações”, alegramo-nos com a proposta de Bento VI para 2010 e esperamos que, este ano seja um ano de graça para todos aqueles que, com fé e coragem, se consagraram inteiramente ao serviço de Deus e da Igreja em favor dos mais pobres.