quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Ramadão: festa cristã(?)


Ser Cristão é ser Missionário

Era a festa que anunciava o fim do Ramadão. A Comunidade Muçulmana celebrava o fim de 30 dias de jejum e de sacrifícios. Para nós, era tempo de vencer barreiras e lutar pela boa continuação das nossas relações.
É certo que, por aqui, nunca tivemos problemas ligados à luta de religiões, mas há que continuar a evangelizar “a tempo e a contra-tempo”.
Assim, convidamos as crianças muçulmanas a celebrar connosco esta festa.
O dia era chuvoso e ninguém chegava à Missão. A Márcia e eu que estávamos a tentar acabar de pintar uma das nossas escolas e íamos estando atentas ao que ia passando no caminho. De repente, umas trinta crianças muçulmanas, com gargalhadas bem sonoras, corriam em direcção à nossa casa.
Com as mãos bem cheias de tinta, corremos nós também, para as recebermos.
A Márcia pegou na saca dos rebuçados (que tínhamos preparado para esta ocasião) e eu na máquina fotográfica. Fomos todos para o jardim da casa e lá, no meio de cânticos e danças árabes fizemos a festa.
As crianças, os rebuçados e a máquina fotográfica foram ganhando as cores com que eu e a Márcia estávamos a pintar a escola e, como qualquer grande família (onde todos são ilhós do mesmo Pai), à noite os pais destas crianças enviaram-nos um dos pratos típicos desta época. Um gesto simbólico que é para nós um símbolo de paz e de fraternidade.
Neste mundo onde a luta de religiões é constante, a nossa identidade, aqui deste lado, não se perde, ao contrário, é o respeito pelas nossas diferenças que nos unem e nos fazem crescer.
Sem fanatismos nem descriminação, vamos traçando novos caminhos de paz onde todos podemos festejar juntos o Deus da Vida.
Nas nossas escolas católicas, as crianças muçulmanas são também uma presença constante. Com elas, sem conflitos, rezamos e partilhamos a alegria de ser Filhos de Deus.
Também aqui, as crianças, num espírito missionário, partilham o entusiasmo de aprenderem e celebrarem Jesus – o Filho de Deus.
Em muitas das visitas do nosso presidente da Câmara (muçulmano) à Missão, discutimos com amizade sobre os pontos que nos unem, não procurando reduzir a nossa dimensão religiosa ou a nossa fé mas procurando, naquilo que nos une, novos caminhos de paz para todos, independente da religião a que pertencemos.
Recordo as suas palavras quando veio à nossa igreja para assistir à chegada oficial da nova comunidade comboniana, na presença do bispo e de toda a comunidade cristã, este muçulmano ousou subir ao altar e com voz forte dirigiu-se à Comunidade Cristã:
- “Saúdo-vos em nome de Cristo” – disse ele – “Hoje a Igreja Católica é abençoada com a chegada destes dois padres. Peço-vos que os acolhais bem e que não haja nem na vossa vida nem na vossa oração, divisão ou discórdia. Sede coerentes com o que diz a Igreja e com a Palavra de Deus”
Porque somos cristãos, que a nossa coerência nos leve, pois, num espírito missionário, a celebrar com alegria o Deus da Vida com todos os que nos estão ora mais próximos ora mais afastados.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Acreditar é viver do Espírito


Creio no Deus Criador!

Chama-se Persa e tem quatro anos. Naquele Domingo, vencendo a timidez tão típica desta idade, à saída da missa veio na minha direcção e, olhando-me bem nos olhos disse: “quero ser baptizada!”
À minha volta circulavam os jovens que tinham sido baptizados no Domingo anterior. Vestidos com a mesma veste branca do dia do Baptizado, eles tinham percorrido 20km a pé para participar na Eucaristia.
Persa, sem dúvida impressionada com esta manifestação de fé, queria, ela também, ser baptizada.
Aqui os baptismos são preparados com uma catequese específica que começa quando as crianças têm já dez anos, por isso, todos se começaram a rir do pedido desta criança, que, com os olhos esbugalhados, continuava a fixar-me sem dar grande importância às reacções dos mais velhos.
Baixei-me e, bem perto dela, disse-lhe:
- “Não percebi bem. O que é que tu queres?”
- “Ser baptizada!” – respondeu ela.
As gargalhadas dos que nos rodeavam fizeram-se sentir de imediato. Para mim, um pedido destes não é caso para rir. Então, peguei-lhe na mão e, alto para que todos ouvissem, disse-lhe:
- “Se queres ser baptizada vamos ver o senhor padre.”
Todos ficaram estupefactos, interrogando-se se o padre iria baptizá-la.
Fui com ela à sacristia e, quando saiu toda a gente, disse ao P. Giuseppe que a Persa tinha algo a pedir-lhe. Ele sentou-se fazendo um gesto à criança para que ela se manifestasse. Persa, com coragem e determinação, repetiu as mesmas palavras: “quero ser baptizada”, disse ela.
O padre olhou-me perplexo e, encorajando-a, explicou-lhe, de uma maneira simples, a importância do baptismo e que, por isso mesmo, a Persa teria de começar a frequentar um grupo que temos cá na paróquia para os pequeninos desta idade – “As crianças da paz”.
Ela confirmou que já estava a frequentar o grupo. Na verdade, a mãe dela é uma das animadoras paroquiais deste grupo.
Assim, dizendo-lhe para continuar nesse caminho, lá fomos fazer uma foto de grupo com os novos baptizados e com a Persa.
Não é fácil encontrar esta determinação nas crianças e jovens. Mas, porque Deus opera sempre no coração do Homem e faz maravilhas que nós não podemos sequer pensar ou imaginar, Persa ficou encantada com o exemplo e testemunho destes jovens que ousaram dizer NÃO à celebração da Palavra nas suas capelas para dizer SIM à Eucaristia dominical (mesmo se isto significou percorrerem 20km a pé).
Esta manifestação de fé faz-nos questionar sobre o testemunho de fé que damos. Seríamos nós capazes de caminhar 20km todas as semanas para participar na missa? Seríamos nós capazes de afirmar publicamente a nossa fé e a nossa concordância com o que é estabelecido pela Igreja?
Este exemplo cristão é força e desafio para dizermos, com a nossa própria vida: “Eu Creio!”

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Tudo em família


A Família Comboniana
ao serviço da Promoção Humana

O encontro estava marcado para aquela Terça-feira às três da tarde. O Sol era abrasador mas as cadeiras metidas à sombra das casas era o suficiente para que a nossa espera se torna-se mais agradável.
Naquela tarde, a nossa comunidade LMC com a comunidade de combonianos aqui presente, partimos para um dos bairros da aldeia para tentar recomeçar a trabalhar com esta Comunidade Eclesial de Base (CEB) que estava parada já há mais de 5 anos.
Esta comunidade, “apadrinhada” por S. Kizito, tem mais de 150 cristãos. Aqui, tentamos, com eles, ler a realidade a partir da Palavra de Deus.
Nesta tarde, poucos foram os que apareceram ao encontro mas isso não impediu a boa disposição de todos que, ora com a Márcia ora com o P. Jesús, iam deliciando-se com as fotografias que íamos fazendo.
Às quatro da tarde, éramos apenas uns vinte a estar presentes. Que fazer? Esperamos mais uma meia hora e, como ninguém mais se aproximava, rezamos juntos pedindo ajuda para esta CEB e para a Paróquia.
Nesta Terça-feira, não podemos eleger os líderes desta comunidade mas conseguimos, com os poucos presentes, descobrir dificuldades e soluções para o seguimento deste projecto pastoral.
Nesta comunidade, vive a família de um dos padres locais. A mãe – Carlota – apesar da idade e de viver sozinha há vários anos (o filho padre é o único que continua vivo), continua a ser um exemplo de força e de fé sobretudo no grupo de Legião de Maria aqui da Paróquia. É também ela que ajuda o seu irmão – Francisco – mais velho que ela e que, desde tenra idade ficou cego e paralítico após uma vacina mal dada…
Este velho, na sua cadeira de rodas e com todas as suas limitações, é catequista e um dos grandes animadores da liturgia. Só ele para saber de cor todas as leituras da missa e, claro, toda a história da Paróquia.
Assim, com estes “arquivos” vivos da história paroquial, esta tarde quente de Terça-feira tornou-se mais do que uma simples espera (por quem nunca chegou), ao contrário, tornou-se num convívio fraterno onde as lembranças do passado se misturavam com a vida actual.
O desafio está lançado e esta comunidade, com o Senhor Francisco e a Senhora Carlota, tem a oportunidade de recomeçar em favor de um desenvolvimento que caminhe de acordo com as páginas do Evangelho – um desenvolvimento que seja para todos independentemente da idade, raça ou condição física.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A porta da Fé? A Esperança e o Amor!


A fé: A força que nos move!


É um bocado difícil de prever o que acontecia às tantas crianças pigmeias de Kpetene se não houvesse uma escola no centro do acampamento. Na verdade, criamos esta escola a 5km da aldeia, em plena floresta, pois, todos os anos, estas crianças que aqui vivem, ao tentarem chegar à escola da aldeia eram desviadas para trabalhar os campos dos não-pigmeus. Estas crianças, de 5 a 7 anos, eram demasiado pequenas para se escaparem às mãos dos adultos e prosseguirem caminho. Assim, há três anos que esta escola oferece os dois primeiros anos de escolaridade.
Um dos problemas com que nos deparávamos era que, dada a humidade da floresta, o quadro da escola deteriorava-se muito depressa… que fazer? A escola nem sequer tinha muros para uma maior protecção!
Animamos os pais a construírem um muro que protegesse o quadro…
Uma manhã, como tantas outras manhãs, a Augusta partiu a Kpetene para visitar a escola e, qual não foi o seu espanto: um muro tinha sido feito quase até ao teto!
Que alegria! Sem pensar duas vezes, a Augusta foi partilhar a sua alegria e entusiasmo com os pais e alunos desta escola e claro no seu regresso, com ela vieram uns dez alunos que, com alegria, preparavam-se para regressar com o novo quadro da escola que, desde há alguns meses, os esperava na Missão.
A Augusta ia-lhes dando alguns conselhos pelo caminho e encorajando-os a continuar a construir a escola com os meios que eles tinham na floresta.
Quando chegaram, a Augusta bebeu e deu a beber aos garotos um pouco de água fresca e deu-lhes o quadro com todas as recomendações que se devem fazer a crianças que levam um quadro escolar para o meio da floresta densa!
Actualmente continuamos a animá-los a continuar o muro da escola e um novo grande quadro espera na Missão para ser levado para Kpetene logo que as condições para a sua instalação estejam reunidas. Agora, incentivamos pais e alunos a arranjarem também novos bancos e mesas (de acordo às possibilidades existentes na floresta).
Esta escola é, para nós e para os que aqui estudam, uma fonte de esperança que não nos deixa baixar os braços, ao contrário, mesmo se foram precisos dois anos para levantar um muro, acreditamos que o tempo será também, com a ajuda de Deus, o necessário para levantar o orgulho deste povo face à descriminação dos demais.
Em cada dia, constatamos que viver a Missão não é uma questão de coragem mas uma questão de fé – a fé que porta e mantém acesa a chama da esperança!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Gargalhadas na floresta


Ao serviço do Evangelho

Naquela manhã de Quinta-feira, posemo-nos ao caminho rumo a Bassin. Um acampamento de pigmeus a 3km de casa. Não se tratava de uma visita “profissional” ou do acompanhamento das actividades que levamos a cabo nesta zona. Ao contrário, era uma visita aos amigos!
Como íamos a pé, ao longo do caminho, as crianças vinham a correr saudar-nos e os adultos sempre nos faziam parar a marcha para pôr a conversa em dia. De tempos a tempos, lá surgia alguma criança que, não estando habituada aos brancos, fugia de nós a chorar como se estivesse a ver um fantasma. Este pequeno “trauma” para a criança, tornava-se origem de gargalhadas bem animadas em todo o bairro.

Quando chegamos ao nosso destino, o acampamento encontrava-se praticamente vazio. Todos tinham partido ao interior da floresta para apanhar as larvas das árvores. Na verdade, esta é a época de as apanhar e de fazer um bom comércio ou se deliciar com o petisco. No entanto, encontramos uma família que ainda estava nos últimos preparativos para a partida.
Lá passamos um bom bocado na conversa e entre risos e algumas fotos lá fomos percebendo as dificuldades com que os pigmeus se batem sempre que abandonam o acampamento nesta altura: têm de transportar tudo quanto possuem (ainda que não tenham praticamente nada) encontrar meios para conseguirem levar para a floresta um pouco de sal e algum saco para trazerem as larvas.
É preocupante esta época, na verdade, quando regressam da floresta, vêm bastantes doentes e, esta altura que deveria ser de grande abundância e alegria torna-se num momento de dor e de perda.
Aproveitamos, pois, esta ocasião, para sensibilizar para a saúde, mas também para aconselhar para serem prudentes no momento de venderem as larvas (normalmente, os não-pigmeus tentam roubá-los ou pagar muito pouco por este petisco).
Assim, passando pela escola e fazendo ainda mais algumas fotos, regressamos a casa.
No regresso, as pessoas que nos tinham visto à ida, praticamente esperavam a nossa volta.
Sempre por meio de saudações, quase a chegar a casa, uma das responsáveis pela iniciação à catequese na nossa paróquia, parou-nos e, sempre bem-disposta, ia-nos pedindo ajuda e dando ideias para o trabalho pastoral que realiza. Aproveitou também para partilhar-nos os problemas familiares que estava a viver, (a filha grávida sem marido, o seu marido que tinha arranjado outra mulher, etc), pedia-nos para rezar.
A nossa manhã chegava ao fim mas a alegria e a esperança que vivemos e partilhamos ao longo deste passeio matinal, fez-nos reflectir sobre a nossa acção nesta terra de missão, sobre o que fazemos e o que somos. Na verdade, este passeio a pé, tornou-se ponto de encontro e de partilha de alegrias e preocupações. Nesta caminhada não levamos nada (nem alforge nem cajado), mas Deus proporcionou-nos momentos em que podemos dar aquilo que somos: a nossa Esperança e os nossos limites. Não podemos fazer milagres? Talvez! Mas estes foram, sem dúvida, momentos privilegiados em que podemos anunciar a Boa Nova aos pobres e aos prisioneiros a liberdade!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O segredo da mulher – ser mãe!


A mulher – o alicerce do desenvolvimento africano


Chama-se Rosaline, tem trinta e poucos anos, cinco filhas e tem SIDA. Em M’baïki detectaram-lhe a doença e sugeriram-lhe que deixasse o bebé de um mês e partisse para morrer em casa, pois, não deveria sobreviver mais de uma semana.
Em vez de seguir o conselho, esta mulher caminhou com a sua bebé nos braços durante 80km e chegou-nos à Missão. Encaminhámo-la ao hospital e demos leite para a criança.
Algumas semanas depois esta mulher estava, aparentemente, bem. Recuperou as forças e recomeçou a vender os produtos do seu campo no mercado para ter algum dinheiro para sustentar as cinco filhas. O marido, esse, partiu para o Congo e nunca mais regressou.
Nesta mulher nunca se descobre um olhar triste, ao contrário, sempre sorridente e cheia de garra, faz face aos problemas que vão surgindo.
Hoje, um ano depois, esta mulher continua, com a graça de Deus, a trabalhar e a cuidar das suas filhas. Sempre sem desistir e sem desesperar com as novas doenças que vão surgindo.
As meninas têm no olhar uma sombra de tristeza mas que não as impede de avançar e se, sorrindo, nos pedir ajuda para poderem ir à escola.
Esta é uma das muitas histórias das mulheres que aqui encontramos.
Sempre cheias de força e de vida, são inúmeros os exemplos de vida como o da nossa cozinheira que, apesar de ser casada é ela que, depois do trabalho, vai ao campo e, chegando a casa, mete os produtos do campo à venda, prepara o jantar para os seis filhos e, caso o marido se meta em alguma confusão, é ela que o vai tirar da cadeia.
Neste país, a mulher, independentemente da sua etnia, e sem ter consciência disso, é a base do desenvolvimento social e o “motor” dentro das diferentes religiões.
Aqui, onde as mulheres são consideradas como inferiores em relação aos homens, é com alegria que a nossa Missão tenha sido sempre maioritariamente formada por mulheres. Nos últimos 11 anos, 8 mulheres LMC passaram por esta casa partilhando a vida destas mulheres que, acreditando no desenvolvimento, se negam a baixar os braços diante das dificuldades.
Se é verdade que por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher, neste continente, precisamos de grandes homens que sejam dignos de tão grandes mulheres!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nas correntes da morte


A Morte vista a partir da Missão

A Maria Natal é a nossa cozinheira. Quando soubemos que estava grávida, alegramo-nos com ela e, apesar do muito trabalho, passamos os nove meses em expectativa e alegria. Eu dizia-lhe sempre, “vamos lá a ver se é um rapaz para ver se assim ainda posso entrar na tua família!” De brincadeira em brincadeira, o tempo passou e ela deu à luz este rapagão de mais de 4 quilos!

Chamou-lhe Abdias (como o profeta) e sempre dizendo que este seria o meu marido ia fazendo a inveja de todas as mamãs que vêm com os seus pequeninos à Missão. Assim, pouco a pouco, Abdias tornou-se o primeiro dos meus “maridos”.
Claro que, partilhando o dia a dia com este bebé que não tinha lá grande saúde, este chegava a chorar e a fugir dos braços da mãe para se lançar nos meus braços.
Um dia, a febre atacou e pouco a pouco foi-se formando uma grande micose na boca. Sem medicamentos adequados em Mongoumba, sugerimos à mãe que o evacuássemos. Ele encontrava-se tão debilitado que lhe sugerimos ir, não de carro (com as estradas que aqui temos) até Bangui, mas ir de canoa até Libenge (no Congo) onde se encontra um hospital gerido pelas irmãs de S. José.
Ela não apreciou a ideia, pois, segundo a tradição, o rio é cheio de feitiços e poderia, assim, ser fatal para o bebé. Também o responsável pelo hospital quase a proibiu de tirar o bebé dali dizendo que ele possuía todos os meios para o salvar.
Os dias passaram e a micose espalhou-se pelo corpo todo. O nosso Abdias partiu para Deus antes de completar dois anos de vida.
No dia seguinte, fui visitar a mãe que, abraçando-me gritava por meio de soluços: “eis que o casamento não será feito”, esta era a sua forma de dizer que todos os sonhos e tudo quanto vivemos com este menino estavam terminados.
Passado mais alguns dias, agora com um pouco mais de serenidade da sua parte, respondi a este grito com uma mensagem de esperança.
Na verdade, aqui na Missão, a morte é uma constante e torna-se sempre uma força para lutar em favor da justiça para que muitos outros “possam ter Vida e tê-la em abundância”.
Hoje, a Maria Natal tem mais um bebé, chama-se Daniel (em honra de Daniel Comboni) e, continua a brincar com um novo casamento. Nada mudou? Não! No seu coração Abdias continua vivo e, ao contrário do que acontecia, quando questionada ao nível das autoridades sobre a competência do pessoal do hospital, esta mulher não tem medo de responder de acordo à realidade. Não o faz por vingança, antes, como ela mesma diz: “se eles (os do hospital) souberem o que eu disse e se quiserem vingar, que se vinguem. Eu morro mas a verdade é a verdade”.
Sejamos, pois, nós também, no nosso dia a dia, capazes de, sem medo de represálias, gritar a verdade em favor da Vida. Conto convosco nesta luta!